quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Compilação dos Editoriais do Jornal A Nova Democracia do ano de 2019

Publicamos a seguir uma compilação dos editoriais do Jornal A Nova Democracia de 2019 por ser um importante material de análise da luta de classes para o estudo e formação das companheiras.






nº 229



Uma chispa pode incendiar a pradaria 

Redação de AND 


É preciso entender muito bem a questão central da crise política no país. São duas situações em desenvolvimento. Uma é a do “governo aparente” de Bolsonaro e o “de fato” do governo militar secreto dos generais. Após a grave crise palaciana que durou de abril a setembro, e tendo ambos os grupos contendentes (a extrema-direita de Bolsonaro e a direita militar do Alto Comando das Forças Armadas – ACFA) se desgastado, por uma questão de “salvação do barco” chegaram a um acordo para abrandar a crise e fazer recuperar a economia. Acordo este frágil e temporário, que não pode se manter por muito tempo, e quando menos possa se esperar, voltarão os bate-bocas e disputas ferozes.
A outra situação da crise é a da, ora latente, e por isso inevitável, rebelião popular que todo dia e em todo país, no campo e cidade, lança suas chispas no ar. É a resistência camponesa pela conquista da terra, a luta indígena pela demarcação de seus territórios roubados pelo latifúndio; é a luta dos estudantes e professores em defesa da educação pública e gratuita, a luta dos trabalhadores em defesa de seus direitos pisoteados e por moradias; a luta da juventude pobre por liberdade, trabalho e contra a sanha da repressão policial. É a acumulação crescente de material inflamável feita de indignação, ressentimentos e ira represados.

Todo esse material acumula-se dia após dia, frente aos brutais golpes desferidos impiedosamente pelo governo contra os direitos do povo, direitos tão duramente conquistados em décadas de luta; pelo incremento a rédeas soltas da matança de pobres, dentre outras situações odiosas. Ações criminosas instigadas pela orgia ideológica fascista que a eleição de Bolsonaro criou, e que é alimentada diuturnamente por seus discursos eivados de preconceitos rancorosos e pelos das falanges retrógradas que povoam as chamadas “redes sociais”, ademais dos elogios e saudações às ações genocidas das forças policiais por parlamentares, membros da justiça e programas policialescos sensacionalistas da TV e do rádio.
A tumultuada tramitação e aprovação pelo Congresso do carrasco projeto de “reforma da Previdência”, que decreta o fim da aposentadoria pública universal, levantou massivos protestos populares e desgastou o prestígio político de um governo eleito por uma minoria do eleitorado apto. Por outro lado, as tropas militares, apoiadoras de Bolsonaro, viram-se traídas por ele, não tendo sido atendidas suas históricas reivindicações em benefício dos privilégios do alto oficialato. Reivindicações estas que durante quase 30 anos foram bandeira e esperança do eleitorado garantidor da carreira parlamentar do capitão. A manutenção dos privilégios da alta oficialidade, particularmente do generalato, aprofundou não só a indignação, mas também as fissuras, no seio das reacionárias Forças Armadas e de repressão.
O demorado acordo para lograr essa aprovação pelo Congresso foi precedido também de desastroso falatório dos fanáticos olavistas contra os generais, fato que embora levasse à queda do general Santos Cruz do alto posto palaciano, deu lugar a um articulador político mais hábil imposto pelo mesmo ACFA. Também o episódio “Queiroz”, que colocara na defensiva o clã Bolsonaro, foi manejado a propósito pelos generais com o arquivamento, pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), das investigações sobre Flávio Bolsonaro, deixando a “espada de Dâmocles” * sobre a cabeça do grupo fascista.
E foi nesta correlação de forças que Bolsonaro teve que engolir, como chumbo trocado, o restabelecimento pelo STF do instituto constitucional de que ninguém poderá ser preso, fora as exceções de flagrante delito e ameaça iminente à segurança da sociedade, após o transitado em julgado, ou seja, mantida a condenação do réu findo todos os recursos na última instância da justiça. Com isto, inúmeros presos, dentre os quais os da Operação “Lava Jato”, ainda detidos, tal como Luiz Inácio, foram soltos.
Contudo, a insustentável situação de instabilidade política que tem posto em xeque a credibilidade das instituições, especialmente do STF (mil vezes achincalhado pelos fascistas de dentro e de fora do governo e tendo seus ministros sido objeto de graves ameaças, sob pena da mais completa desmoralização desta que é a corte suprema do país) levou a uma reviravolta interna. As mais de 900 investigações arquivadas voltaram às barras da justiça, dentre as quais a do filho do presidente. Com Bolsonaro mais uma vez encurralado, o acordo palaciano só encontra sobrevida no ranço anticomunista e antipovo do pronunciamento ameaçador de todo o governo frente às rebeliões que ocorrem no Equador, Haiti, Chile, Bolívia, Colômbia, como prevenção ao pesadelo da explosão no país de um novo “junho de 2013”, maior e mais violento.
Antes, ao modo arrivista que o caracteriza, o fascista Bolsonaro, empurrado pelos generais, também serviu-se do episódio das queimadas na Amazônia para, de forma dissimulada sob o apanágio de decreto de “Garantia da Lei e da Ordem” (GLO), atacar o movimento camponês naquela região. O obstinado fascista refere-se às famílias camponesas, que sustentam a Nação junto aos operários e demais trabalhadores, com termos como “bandidos” e “terroristas”. Ele acusa a esmo o movimento camponês organizado, que busca destruir o atraso da Nação e a miséria do povo no campo e na cidade, como se os camponeses fossem uma ameaça ao país. Não! As massas camponesas organizadas, juntamente com o proletariado e a pequena burguesia urbana, são uma ameaça aos parasitas da Nação, latifundiários, grandes burgueses e às potências imperialistas que saqueiam o país, principalmente o USA, que a mantém como país semicolonial e semifeudal.
Bolsonaro fala de reprimir os camponeses ao invés de investigar os latifundiários que usurpam terras públicas, pilham suas riquezas e devastam a natureza, tudo sob a proteção do velho Estado. Um exemplo recente pôde ser visto na Bahia, onde uma empresa fantasma que detinha a posse de mais de 800 mil hectares (!), era acobertada por liminares vendidas pelo Tribunal de Justiça daquele estado, numa ação tão desavergonhada que o próprio judiciário não teve mais como esconder.
A “GLO do campo” e a “excludente de ilicitude” são parte da terceira tarefa da reação, precisamente de impor um endurecimento das leis penais e se livrar de qualquer inconveniente legal que constranja as forças repressivas de exercerem toda a bestialidade contra as massas rebeladas e, principalmente, contra a insurgência revolucionária. Nesse sentido, nela convergem tanto a extrema-direita bolsonarista quanto a direita do ACFA. Na repressão desenfreada às massas rebeladas se manterão unidos.
Mas o capitalismo burocrático, em crise geral de decomposição, necessita espoliar ainda mais não só o proletariado e o campesinato, terá obrigatoriamente que garrotear os pequenos e médios proprietários com o alto custo do dinheiro e impostos escorchantes, em benefício dos monopólios financeiros, bem como afetará duramente a educação e a produção cultural do país. É só questão de tempo, como decorrência direta das “reformas” econômicas odiosas que já estão sendo aplicadas. Tais medidas para sair da crise econômica, que é base da profunda crise do velho Estado e agonia de seu desmoralizado sistema político, conduz necessariamente os reacionários a centralizar o Poder político de modo absoluto no Executivo. Seja através do molde corporativo e fascista propugnado por Bolsonaro, seja no molde da reforma constitucional predicado pela direita do ACFA. Isso aprofunda a instabilidade: além de atiçar a rebelião das massas, agravará ainda a divisão no seio das classes dominantes, da pugna entre a fração compradora e a burocrática e entre os seus vários grupos de poder.
Dentro dessa situação, a falsa esquerda oportunista eleitoreira e conciliadora de classes (com seu ensebado discurso de “Estado democrático de direito”) e a centro-direita eleitoreira são pesos mortos no jogo político. Não têm condição, hoje, de retornar à cena política a não ser como coadjuvantes, submetidas às forças da direita militar e civil ou da extrema-direita ou mera oposição contida. A soltura de Luiz Inácio, que implicou um golpe na “Lava Jato” (embora não tenha sido a morte mesma da Operação), só somará mais ingredientes à crise política, assanhando a extrema-direita e criando controvérsias no seio da direita militar.
Bolsonaro, embora ainda tenha algum peso nas massas entorpecidas, perde apoio e, tentando recuperá-lo, necessita de retomar a ofensiva colocando mais abertamente seu projeto fascista. Lança mão do partido “Aliança pelo Brasil”, que, pelas tendências gerais, será mais um aborto fascista que mistura a ideologia feudal de seitas neopentecostais com o pseudo nacionalismo, na realidade, anticomunista belicoso, para mobilizar e encabrestar massas iludidas.
As massas serão empurradas e vão à luta com a experiência histórica acumulada e as lições de 2013/2014. As massas não só serão empurradas, como elas se politizam e estão clamando por uma direção revolucionária, estão sedentas por organizar-se em formas mais elevadas, por lutar belicosamente por seus interesses. As instituições oficiais não lhes inspiram confiança, tampouco respeito, sendo estas as forças que cada vez mais lhes atacarão em todas as frentes. A própria reação reconhece tal estado de coisas. As massas saberão revidar. Uma só chispa pode incendiar toda a pradaria.
Nota:
* Anedota em que Dâmocles é posto em uma situação rodeado de tentações, porém tem sobre sua cabeça uma espada pesada e afiada, segurada apenas por um único fio de rabo de cavalo. Nessa situação, ele fica paralisado e tende a renunciar aos seus objetivos, pois qualquer movimento pode provocar a queda da espada sobre seu crânio, ocasionando sua desgraça.

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Editorial - Desespero bolsonarista ameaça as massas com o fascismo 


Bolsonaro busca manter sua imagem de “antissistema” enquanto de fato almeja assumir a direção da ofensiva contrarrevolucionária (golpe militar a prevenir-se do levante popular), hoje nas mãos ainda dos generais golpistas do Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) que procuram manejar esta ofensiva por dentro da ordem legal em prol de um regime de máxima centralização do poder no Executivo, evitando que a resistência da sociedade seja ampla como seria, seguramente, no caso do golpe militar aberto que planeja a extrema-direita bolsonarista.

O governo de fato segue sendo o governo militar secreto do ACFA, porém a luta entre este e a extrema-direita, que tenta levantar a cabeça, agudiza-se. O delirante guia bolsonarista, Olavo, orienta  Bolsonaro a fechar o Congresso e que o povo e as Forças Armadas devem se unir ao presidente. Depois, o guru fascista disse que se o governo “não fechar os partidos” dessa esquerda eleitoreira ele “será derrubado em 6 meses”. Claro, os bolsonaristas nada dizem sobre a superexploração indecente que querem impor ao povo, pois isso seria o fim de sua alquimia.
A ofensiva da extrema-direita manifesta-se descaradamente, na boca de outros que não o presidente, porque sabem que quanto mais demoram para impor o seu governo real, até agora tutelado, mais difícil fica tal plano, pois o capital político de Bolsonaro se esvai, minuto após minuto.
Nos últimos episódios dessa patética novela, Bolsonaro e seu grupo de extrema-direita explodiram a crise dentro do Partido Social Liberal (PSL) com o objetivo de rifar o presidente da sigla, Luciano Bivar, e assumir a sua direção e se apoderar do colossal volume de dinheiro oriundo dos imorais fundos partidário e eleitoral. Enquanto isso, Bolsonaro tenta aparentar e manipular as massas como se fosse ele um “herói” solitário e injustiçado pelo “mundo político”, que pela “salvação do país” briga até com seus correligionários. Estória ridícula de um lumpen extremista que como militar foi medíocre e que enriqueceu chafurdando no parlamento.
O primeiro a “chutar o pau da barraca” daquele valhacouto da reação chamado PSL foi o próprio Bolsonaro ao romper com o líder deste na Câmara dos Deputados, Delegado Waldir, ao mesmo tempo que impôs seu filho Eduardo no lugar. Perdida a disputa, disse que pode vir a ser um “presidente sem partido”, num apelo populista, como quem é independente do “mundo político”.
Em resposta, Delegado Waldir expeliu no baixo calão que iria “implodir Bolsonaro”. Depois proliferaram ameaças de revelar o que os Bolsonaros fizeram “no verão passado”. As mensagens de Fabrício Queiroz (o homem das “rachadinhas”) temendo as investigações e a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Fake News, que pode pegar no pulo o esquema de envio de mensagens pago ilegalmente por bolsonaristas da grande burguesia e latifundiários, se somam a esse montão de lixo.
A briga “miliciana” é tamanha que mesmo ameaças de mortes são trocadas por este lumpesinato endinheirado. A deputada Joice Hasselmann (da direita civil, porém que surfou no bolsonarismo), apavorada, recebeu um recado deste tipo, acompanhado com uma cabeça de porco decepada e uma peruca loura.
Bolsonaro busca controlar o PSL, primeiro e antes de tudo, para ter controle do dinheiro fornecido pelo velho Estado e impulsionar candidaturas alinhadas ao seu plano fascista. Em segundo, para estabelecer um partido fascista, um partido “puro-sangue” que aplique mobilização, organização e corporativização das massas e militarização (uma versão da SA nazista, grupo armado civil de fascistas). Hoje, o PSL está longe de sê-lo. A maioria dos deputados e mesmo os dirigentes do PSL são elementos da direita civil, como Joice Hasselmann, ou mesmo da centro-direita que surfaram na “onda” eleitoreira bolsonarista.
Ademais, as revelações de que os acusados de executar Marielle Franco (os paramilitares Élcio Queiroz e Ronnie Lessa) se encontraram no condomínio onde vive Bolsonaro e de que um deles teria falado por interfone com algum parente do presidente, justamente no dia da covarde execução da vereadora – implicando diretamente o grupo de Bolsonaro no crime político – pode precipitar a explosão pública da luta até agora surda por dirigir a ofensiva contrarrevolucionária em curso. Nada garante que por trás de tal vazamento não esteja a direita militar e civil, manejando seus quadros, tudo coordenado pelo ACFA e compaginado com o monopólio de imprensa, por ter considerado o momento oportuno para desgastar a imagem de Bolsonaro e talvez forçá-lo a capitular por completo ao plano dos generais de golpe “pela via constitucional” ou mesmo criar condições políticas para afastar Bolsonaro e substituí-lo pelo general Mourão.
O caso Marielle pode ser levado ao Supremo Tribunal Federal (STF) e seus desfechos para a crise militar são, nesse sentido, imprevisíveis. Bolsonaro, qual bicho acuado, pode levantar sua tropa lumpen e prosseguir à ofensiva, embora não tenha forças suficientes para impor-se à direita no ACFA e suas bases nas Forças Armadas estejam em franco desmonte por conta da “reforma da Previdência militar” que privilegia generais em detrimento da tropa (a propósito, essa sempre foi a exigência primária dos generais, não à toa). Quão colossal é a crise geral do apodrecido Estado brasileiro!
Por outro lado, o apuro geral da reação ao ver os grandes levantamentos populares no Equador e Chile torna-se escandaloso. Se a falsa esquerda oportunista eleitoreira não é capaz de ver (ou não quer ver) o potencial político revolucionário das massas, os reacionários não têm dúvidas quanto a ele. Daí que desde as revoltas populares de 2013/14, como ação preventiva e sob direção direta do ACFA, a reação planificou e pôs em marcha uma ofensiva contrarrevolucionária por meio de um golpe militar passo a passo, por dentro do ordenamento legal, a culminar via o uso da intervenção militar (Garantia da Lei e da Ordem, GLO) e de reformas constitucionais para estabelecer um regime de centralização máxima de poder no Executivo com véu de democracia.
Já Bolsonaro, à cabeça da extrema-direita, ao contrário dos generais que se movem em silêncio, não cansa de alardear abertamente seu intento. No compasso da pregação do guru Olavo – quem ressalta a necessidade de medidas de força contra os partidos autodenominados de esquerda – Bolsonaro anunciou que as Forças Armadas serão acionadas em caso de levante das massas no Brasil e seu pimpolho Eduardo brandiu com a ameaça de um novo Ato Institucional 5 (AI-5).
Tremam, senhores! Tal levante explodirá inevitavelmente, mais cedo do que tarde, por toda a situação de exploração e opressão acumulada secularmente, cuja gota d’água está nos cortes de direitos, como a imposição bandidesca da “reforma da Previdência” por uma maioria ocasional de um parlamento putrefato e desmoralizado; motivos para que tal explosão social ocorra não faltam, longe disso, são abundantes os atropelos que infelicitam diariamente nosso povo, promovidos por esse sistema. Já os oportunistas da falsa esquerda, que praticamente nada fizeram contra tais crimes ou mesmo com ele coonestaram, diante da ofensiva golpista se arvoram em paladinos da defesa deste atual “Estado Democrático de Direito”, defesa ridícula deste regime político assegurador e legalizador de todo o sistema de exploração e opressão em crise de decomposição.
A direita hegemônica no ACFA, golpista e também anticomunista, por sua vez, está atuando com cautela para tutelar o grupo de Bolsonaro e desgastá-lo nos bastidores, sem tornar-se protagonista publicamente. Porém, tal força ainda tem que lidar com a movimentação das forças políticas de centro-direita e do oportunismo que pretendem dar um basta na “Lava Jato”. Amontoa-se material explosivo e uma só faísca pode explodir tudo.
No STF a votação para decidir se é constitucional ou não a prisão em segunda instância (decisão que determinará a sorte da própria “Lava Jato”, pois podem ser soltos todos seus “troféus” presos), no que depender do posicionamento espontâneo dos ministros, pode ter desfecho contrário à Operação, visto que a composição dessa instituição tende à centro-direita, embora haja uma contratendência à direita (Luis Roberto Barroso, Edson Fachin, Luiz Fux etc.) estimulada pelo ACFA. Dias Toffoli está sendo aquartelado pelos generais que estão movimentando-se e ameaçando a todo o tempo o STF, coagindo tal instituição a seguir os planos da ofensiva contrarrevolucionária para dar cobertura de “legalidade” e “constitucionalidade” ao golpe militar passo a passo, desatado sob a forma de Operação “Lava Jato”.
Recentemente, por exemplo, Toffoli disse que seu voto não é como o de qualquer ministro, pois sendo ele o presidente do STF precisa ter “responsabilidade” com os efeitos políticos de suas decisões, dando a entender que pode acabar votando contra suas próprias convicções. É um passo adiante no acovardamento às pressões dos generais direitistas, comprovação de que essa republiqueta e seus arremedos de “instituições democráticas” são sustentados e caminham para onde ordenam as baionetas.
A direita no ACFA quer salvar a “Lava Jato” porque é parte estratégica de seu plano contrarrevolucionário preventivo de “lavar a fachada” do sistema político, cujo propósito central é “desarmar a bomba” em que se converteu a desmoralização das instituições perante as massas. Por outro lado, os generais querem impedir que toda a opinião pública manipulada por um falso moralismo anticorrupção, que hoje aglutina-se na defesa da “Lava Jato”, se radicalize ao vê-la morta pelas mãos do STF e encontre no discurso fascista bolsonarista uma vazão para sua histeria, o que impulsionaria o apoio ao golpe “à moda antiga”.
Enquanto isso, através da GLO, os generais e Bolsonaro mandam soldados do Exército brasileiro cercarem acampamentos do movimento camponês combativo em Rondônia, com a desculpa de combate aos incêndios em regiões nas quais sequer há focos de queimadas. Prova de que as hienas direitistas, bolsonaristas fascistas e outras mais convergem em tentar massacrar a luta sagrada do povo brasileiro.
Às massas populares, assim como a todos os democratas e revolucionários, não cabe temer as desordens por receio de favorecer este ou aquele grupo de reacionários em pugna. É preciso ter claro que enquanto as massas não impuserem seus interesses máximos, materializados na República Popular do Brasil, seguirão padecendo das piores desgraças, acentuadas a cada crise do imperialismo e deste anacrônico capitalismo burocrático; a cada luta concreta de resistência pelos seus direitos assaltados as massas encontrarão à sua frente uma contrarrevolução que tende a ser cada vez mais sádica e raivosa. Frente a isto, é também um crime os assustados gritos e apelos por “unidade a qualquer preço” em defesa dessa democracia podre, pertencente a este sistema vil. Hoje, só uma Grande Revolução Democrática pode varrer e enterrar de vez a reação, seja ela na forma do fascismo descarado ou disfarçado.
A unidade do povo só pode ser verdadeira na destruição de toda essa velha e anquilosada ordem. Não há outra via que não a Revolução cuja marcha é prolongada. Dirão muitos dos que ora gritam assustados contra o bolsonarismo: “violência não, respeito à Constituição!”. Não é por acaso isto o que dizem Bolsonaro e os generais que tutelam seu governo? O Brasil marcha para grandes rupturas históricas pendentes e retardatárias; a nossa revolução de complicada gestação bate à porta! E não há nada que a valha! É preciso preparar as condições subjetivas para que esse grande levantamento que explodirá no país conduza o doloroso e tão anelado parto ao luminoso rebento do Brasil Novo.

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Editorial - As massas levantarão sua contraofensiva revolucionária 


Nas últimas semanas cresceram as intervenções de Bolsonaro em diversos órgãos executivos como parte da pugna palaciana entre a extrema-direita e a direita do Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) reacionárias pela direção da ofensiva contrarrevolucionária preventiva.
A Polícia Federal, por exemplo, cujo comando está alinhado com a direita militar e civil (núcleo do establishment: o ACFA, o grupo seleto de procuradores, donos de grandes corporações do agronegócio, do setor industrial e banqueiros, cabeça do monopólio de imprensa, tudo monitorado pelo imperialismo ianque) será alvo de intervenção de Bolsonaro, e o apontado para ser o novo diretor-geral da instituição é Anderson Torres, amigo pessoal dos filhos do fascista.
Para o comando do Ministério Público Federal, outro órgão hoje sob controle da direita, Bolsonaro indicou Augusto Aras que, embora tenha um passado “petista”, só foi indicado após longo período de negociações secretas com Bolsonaro, em reuniões não oficiais. De saída, Raquel Dodge, imposta no cargo pelo ACFA, através de Temer, afirmou que é preciso “ficar alerta com riscos à democracia”.
Todos esses “rearranjos” são aspectos visíveis de uma pugna surda muito maior. É expressão da disputa cada vez mais feroz entre os interesses das frações das classes dominantes, mediante a profunda crise de decomposição do atrasado capitalismo burocrático do país. Brigas de forças que só se unem para impor “reformas” de incremento da exploração do povo e de políticas vende-pátria. Tudo isto e o inevitável levantamento do povo, cada dia mais revoltado, são partes do longo e tormentoso processo de rupturas do caminho sem volta que entrou o Brasil.
Tal situação política atual é produto da convergência de fatores, tais como a crise geral de decomposição do capitalismo burocrático (em recessão profunda desde 2015, que se arrasta entre frágeis sinais de lenta recuperação, já apontando para mais queda e depressão), a agonia do sistema político corrupto sem legitimidade e credibilidade, frente ao qual abriu-se novo ciclo de revoltas populares país afora e bem expresso nos 56 milhões de pessoas que boicotaram as últimas eleições. Situação política que já havia acendido a luz vermelha da velha ordem do perigo de revolução, frente ao qual a reação desfechou sua ofensiva contrarrevolucionária preventiva, a princípio, como “Lava Jato”. Situação agravada pelo impacto da crise geral, que se aprofunda, do imperialismo. É a crise geral do caminho burocrático da velha ordem.
Essa ofensiva contrarrevolucionária desatada preventivamente visa cumprir as três tarefas reacionárias de salvação da velha ordem putrefata. Ou seja: 1) recuperar a economia para impulsionar o decadente capitalismo burocrático; 2) reestruturar o velho Estado com um regime de centralização absoluta do poder no Executivo para assegurar total controle e unificação das ações do Estado; e 3) incrementar a repressão e endurecer a lei penal contra a luta popular para conjurar o perigo de revolução e esmagar a rebelião popular. A extrema-direita militar e civil (grupo de Bolsonaro guiado Olavo de Carvalho, tropas de suboficiais e sargentos das Forças Armadas reacionárias, chefes de igrejas neopentecostais e outros) e a direita militar e civil encabeçada pelo ACFA querem impor tal regime de centralização absoluta no Executivo, porém há uma divisão crucial sobre a forma que deve tomar tal regime político de salvação da velha ordem.
O ACFA que desencadeou a ofensiva contrarrevolucionária preventiva, compaginada com o plano ianque de aprofundar a militarização na América Latina, busca viabilizar tal regime por via constitucional, mas não por amor a alguma “democracia” e sim por estar seguro de que impor um regime militar hoje levantará de pronto uma ampla resistência na sociedade brasileira de total repúdio e rechaço aos militares. Com a acidental eleição de Bolsonaro, embora o ACFA tenha empalmado o governo e imposto um “governo de fato”, a obstinação do grupo fascista do presidente em impor um regime militar fez abrir essa disputa pela direção da ofensiva contrarrevolucionária. Divisão e luta que se radicalizam, já no limite, envolvendo todas as instituições do velho Estado – tal divisão e luta têm como centro a crise nas Forças Armadas.
E a crise militar que se agrava com as pugnas palacianas ganhou novo ingrediente com a “reforma da Previdência dos militares” que pôs as tropas em pé de guerra com o alto oficialato cheio de privilégios. Tropas que, até então, muito alinhadas a Bolsonaro, agora questionam o presidente por trair o compromisso e a promessa para com elas. Com suas declarações, aparentemente desbocadas, Bolsonaro propagandeia seu extremismo, especialmente na tropa, e busca ganhar adeptos novos e manter os antigos, que desconfiam que o “velho” Bolsonaro extremista já não é o mesmo, encurralado que se acha pelos generais do AFCA.
Além dessas duas bandas ultrarreacionárias que disputam a direção da ofensiva contrarrevolucionária, na luta intestina das classes dominantes de grandes burgueses e latifundiários, serviçais do imperialismo, atuam outras duas forças políticas eleitoreiras. Uma é a centro-direita, composta por partidos tradicionais (PSDB, MDB, DEM etc.) e diversos grupos de poder das velhas raposas da política eleitoreira, em geral presentes no parlamento e no Supremo Tribunal Federal (STF). Tal centro-direita aproveita da divisão no seio do golpe em marcha para impor derrotas pontuais aos planos que diretamente afetam os seus interesses particulares. A outra força política, que busca sobreviver somando-se a esse  campo dos adoradores da velha democracia e seu “Estado democrático de direito” é a falsa esquerda oportunista eleitoreira (PT, PCdoB, Psol, ademais de PSB, PPS e PDT) e seus satélites trotskistas e/ou pós-modernos (PSTU, PCO, PCB).
Como parte das movimentações dessas duas forças – centro-direita e falsa esquerda –, há alguns meses, no STF, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes impuseram um “inquérito” com o qual o próprio tribunal realiza investigações sobre “ataques ao supremo” – investigação que é exclusiva ao Ministério Público. Tal ação da centro-direita foi lançada aproveitando-se do rebuliço que causaram os ataques da extrema-direita ao STF durante a crise institucional em abril, que trouxemos à tona na última edição.
Tal “inquérito” já empreendeu busca e apreensão na casa de um general direitista que flerta com o bolsonarismo, Paulo Chagas, por suspeita de ataques à instituição, causando alvoroço entre a direita e a extrema-direita. Com isso, os ministros armam-se para dissuadir qualquer tentativa de promover operações do tipo da “Lava Jato” no STF.
Embora Toffoli e alguns dos outros ministros do STF (Carmén Lúcia, Alexandre de Moraes, Celso de Mello e outros) estejam aquartelados pelos generais e cedam mais ou menos facilmente às pressões da ofensiva contrarrevolucionária, o nicho e a posição política dessas figuras é a centro-direita e a defesa medíocre de um desidratado “Estado democrático de direito”. Ademais, tendo a ofensiva contrarrevolucionária a tarefa da centralização absoluta de poder no Executivo, ela invariavelmente chocará com os grupos de poder que hoje hegemonizam os outros dois “poderes” da república.
Outro episódio que foi um golpe inesperado contra os planos do ACFA (desatou e comanda a “Lava Jato”), em benefício imediato da centro-direita e do oportunismo, refere-se ao vazamento das mensagens de Moro e procuradores, que revela a maquinação secreta da ofensiva contrarrevolucionária e põe em xeque todo o modus operandi aplicado. A soltura de Luiz Inácio e, consequentemente, de vários figurões, pode derreter todo o avanço do plano contrarrevolucionário de “lavar a fachada” do sistema político pela via institucional e, inclusive, inviabilizá-lo.
A falência completa da “Lava Jato”, pela cruzada moralista e ilusória salvação da pátria que gerou, escandalizaria a sociedade e lançaria mais desmoralização das instituições e mais caos. A extrema-direita que prega moralidade e sabota a “Lava Jato” que ronda componentes seus, ganharia com seu fracasso, pois que isto favorece a ruptura institucional, tão propícia à imposição da ordem fascista por tal força predicada como “única salvação para a nação” ante o “terrível perigo do comunismo”.
Para evitar o derretimento da “Lava Jato”, os generais do ACFA (secundados pela “artilharia pesada” do monopólio de imprensa) pressionam diuturnamente o STF a abandonar suas intenções de julgar a suspeição de Moro e de liberar Luiz Inácio. Nisso chocam-se com Gilmar Mendes, representante nato da centro-direita. Com ameaças e advertências, os generais explicitam que qualquer movimento decisivo contrário à “Lava Jato” lançará o país no caos institucional, na desordem e anarquia, especialmente porque podem perder para a extrema-direita a narrativa na opinião pública reacionária. Situação na qual, para não perder totalmente o controle da direção do Estado, seriam obrigados a lançar de uma vez por todas os tanques nas ruas em nome de manter a própria ordem constitucional, restando saber no que desembocaria a crise militar e como reagiriam as massas.
Entre as três forças reacionárias (extrema-direita, direita e centro-direita) o ponto de unificação é a irreversível defesa da velha ordem de exploração e opressão a qualquer custo, ainda que divirjam sobre a forma política a adotar. Irão digladiar, como pugnam desde já, mas estarão sempre dispostas, ao final de contas, a se unirem quando as massas populares se levantarem em grandes revoltas e estas tomarem cunho de contraofensiva revolucionária. Nesta situação, o campo do oportunismo balançará, sem rumo inicialmente, mas a maioria dele terminará fazendo coro com a reação.
Se a extrema-direita lograr impor o regime militar fascista que predica, arrastando junto de si a direita militar, tenderão a centro-direita e o oportunismo a manterem-se num campo intermediário, entre revolução e contrarrevolução, brandindo “nem um e nem outro!”, mas só transitoriamente. Se a direita triunfar sobre a extrema-direita, impondo sua forma de máxima centralização de poder no Executivo encoberta do véu constitucional e careta “democrática”, ao fim e ao cabo, tanto a centro-direita quanto a maioria da falsa esquerda oportunista – sedentas eleitoreiras – se unirão à ofensiva contrarrevolucionária em oposição à revolução.
O Brasil entrou a um novo período de grandes tempestades. O caminho democrático das massas populares está renovando suas forças. Inevitavelmente, irá gestar e organizar seus instrumentos de luta. Saberá reerguer o partido revolucionário do proletariado para encabeçar sua contraofensiva revolucionária. Desafiando o vento e a maré essa contraofensiva se voltará como poderoso tufão para remover e varrer, numa tormentosa e prolongada guerra, parte por parte, todo o atraso secular a que estão submetidos o povo e a Nação, varrer as três montanhas de exploração e opressão: o latifúndio, o imperialismo – principalmente ianque – e o capitalismo burocrático.
Para as massas populares – essa sim, força política capaz de transformações extraordinárias, inimagináveis –, massas historicamente exploradas e oprimidas, hoje mais ainda pisoteadas e ludibriadas pelas quatro forças das classes dominantes, só há o caminho da luta combativa e violenta. Aos democratas e revolucionários que defendem e assumem os interesses máximos dessas massas, só cabe uma atitude: abandonar as ilusões constitucionais e se prepararem para a luta dura e prolongada, fundindo-se com as massas. Em suma, estalar e desenvolver a grande batalha, persistindo incansavelmente até triunfar a Revolução de Nova Democracia.

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Editorial - Persistir nas mobilizações pela Greve Geral de Resistência Nacional 


As vitoriosas mobilizações em defesa dos direitos do povo (como a ocorrida no dia 13 de agosto), especialmente a Greve Geral que ocorreu no 14 de junho, foram demonstrações patentes do repúdio popular, no campo e na cidade, contra às medidas draconianas de cortes de direitos na legislação previdenciária e na política educacional, medidas  impostas pela ofensiva contrarrevolucionária preventiva das Forças Armadas reacionárias que empalmaram o governo do fascista Bolsonaro.
As hostes bolsonaristas e a imprensa dos monopólios fizeram de tudo para desmerecer as iniciativas dos trabalhadores e da juventude combatente, que paralisaram fábricas, transporte, serviços públicos em geral, escolas públicas e privadas. O oportunismo, por sua vez, cumpriu o baixo papel de desviar a luta das massas para fins eleitoreiros por meio de vários subterfúgios, como o seu “Lula livre”. Porém, todos eles deram com os burros n’água.
Recentemente, no dia 13 de agosto, uma nova onda de manifestações sacudiu as capitais dos estados e principais cidades do interior do Brasil, dando mais um impulso na luta contra a proposta dos golpistas reacionários de retirar direitos dos trabalhadores e da juventude. Várias capitais contaram com a decisiva participação entusiasta e enérgica da juventude combatente e de várias categorias de trabalhadores, lideradas pelos sindicatos classistas combativos e organizações revolucionárias de estudantes e da juventude do povo, conformando, pouco  a pouco, o núcleo de direção da resistência popular por cidades e vilarejos, em todas as regiões do país.
Palavras de ordem foram estampadas em grandes faixas e bradadas pelos manifestantes com as consignas de “Greve Geral de Resistência Nacional” e “Contra a ‘reforma da Previdência’, greve geral!”. Os manifestantes também queimaram as bandeiras do USA e Israel, repudiando o capachismo de Bolsonaro e seu governo tutelado pelas Forças Armadas, e seus anunciados projetos vende-pátria.
Não importa que a proposta dos golpistas tenha passado na putrefata Câmara dos deputados, antro de corruptos de carteirinha. Tampouco importa que ela tenha tido a mesma sorte no Senado, refúgio da oligarquia latifundiária-burocrática, serviçal do imperialismo. Eles podem aprovar mil leis para o seu próprio benefício pisoteando os parcos direitos conquistados em duras lutas pelo povo. Estes remanescentes do feudalismo operam com um velho ditame da velha república: “Para os amigos: tudo; para os indiferentes: a lei; e para os inimigos: os rigores da lei”. Ou seja, para as classes dominantes a lei é só um detalhe. Quando a lei limita-lhes aumentar a exploração e opressão das classes dominadas, elas simplesmente alteram a lei.
As mobilizações e a luta popular, ao mesmo tempo que resistem aos ataques aos direitos do povo desferidos pela ofensiva contrarrevolucionária, devem denunciar e repelir toda e qualquer ideia de tomar um lado nas pugnas dos grupos de poder das classes dominantes de situação e “oposição”. As massas tampouco devem tomar partido nas brigas sujas palacianas entre a direita do Alto Comando das Forças Armadas e o grupo da extrema-direita de Bolsonaro.
Tal como a ideia do “mal menor” defendida pelos velhos oportunistas em cada eleição, agora setores reacionários apresentam a proposta de “entregar o governo ao centrão” através da implantação do parlamentarismo, comandado pelas velhas pragas, corruptos profissionais como Rodrigo Maia.
A consigna levantada nas manifestações pelas forças democrático-revolucionárias de “Nem Bolsonaro! Nem Mourão! Nem Congresso de corruptos! Fora Forças Armadas reacionárias!”devem ser completadas com a consigna: “Pela Revolução de Nova Democracia!”.
Só a Revolução de Nova Democracia, com o desencadeamento da Revolução Agrária e Anti-imperialista, poderá varrer toda esta escumalha e construir o Brasil Novo.

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Editorial - ‘Reforma da Previdência’ é o estopim da revolta 


Por mais que Bolsonaro procure dissimular a compra de votos de parlamentares para a aprovar a “Reforma da Previdência” no Congresso, e por mais que tente se esconder por trás de leis pregressas, não há como negar as escandalosas negociatas realizadas com os grupos de poder das frações das classes dominantes desse decrépito capitalismo burocrático, em sua crise geral de decomposição.
Para encobrir a prática do “toma lá, dá cá” que condenam em retórica, Bolsonaro e o governo de generais liberaram mais de R$ 1,5 bilhão, na véspera e no dia da votação da “Reforma”, em emendas parlamentares que atendem aos interesses de referidos grupos de poder, aos lobbys regionais e às oligarquias.
Benefícios ao latifúndio (agronegócio) também foram garantidos, através de renúncias fiscais e perdão das dívidas com a Previdência, graças ao “empenho” do governo e desse Congresso de corruptos. Segundo o texto aprovado em primeiro turno, no dia 10/07, como já de praxe, não serão cobradas contribuições previdenciárias sobre as exportações do latifúndio. Além disso, abriu-se brechas para perdoar a dívida dos latifundiários com o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural), cujo valor ultrapassa R$ 17 bilhões! Nada estranho, afinal, como disse o próprio Bolsonaro à bancada ruralista: “Esse governo é de vocês”.
Outros privilégios mantidos destinam-se às Forças Armadas e a todo o sistema de repressão policial, setores que constituem sua principal base social formada por pessoas com emprego garantido, salários elevados e aposentadorias privilegiadas; pessoas liberadas da obrigação de prestar serviço aos 55 anos de idade, enquanto os trabalhadores e trabalhadoras labutarão respectivamente até os 65 e 62 anos, com absurdos 40 anos de contribuição.
Sendo este um Congresso de pacotilha, barganhou com Bolsonaro, além das emendas, a distribuição de mais de mil cargos comissionados, e o capitão fascista ofertou ainda à “bancada da bíblia” a nomeação de um ministro no STF “terrivelmente evangélico” – nas palavras do próprio. Isto sem mencionar os benefícios à “bancada da bala”, concretizados por projetos de leis a serem editados posteriormente. E na ânsia por ganhos e privilégios, os deputados, escroques e aproveitadores, procuraram inserir emendas que agregassem mais vantagens aos seus interesses e de seus patrões, numa comprovação horrenda do imundo balcão de negociações que tal casa é.
A dívida dos monopólios da grande burguesia e do latifúndio para com a Previdência, cujo pagamento garantiria seu funcionamento sem a necessidade de cortes abomináveis nos direitos dos mais pobres, é o retrato do caráter de classe de um governo dos ricaços; governo capaz de tantas trampolinagens para conseguir engabelar parcela da população com seu canto de sereia.
A Greve Geral, concretizada pelas grandes mobilizações contra a “Reforma da Previdência”, apesar do corpo mole dos oportunistas eleitoreiros e a pelegada das centrais, foi só o prenúncio do levante popular no campo e na cidade. Início da rebelião por manter os direitos dos trabalhadores, sob a palavra de ordem de “Greve Geral de Resistência Nacional!”. Os oportunistas, por sua vez, estão preocupados em manter suas sinecuras. Nada de novo. Isto nos traz, uma vez mais, a grande verdade: a batalha das massas por seus direitos não ocorre e tampouco depende do apodrecido parlamento brasileiro, cujo plenário está repleto de abutres ávidos por açambarcar o botim do que é do povo, uma vez que é o povo o verdadeiro produtor da riqueza nacional.
Noves fora a sua tropa de choque política – composta de militares do baixo oficialato, praças e de policiais civis e militares –, e alguns privilegiados de alta burocracia e as classes dominantes locais de grandes burgueses e latifundiários – serviçais do imperialismo, principalmente ianque –, a massa dos trabalhadores que ainda resta em apoio ao governo o abandonarão, reduzindo-o ao seu ínfimo tamanho, assim que sentir na própria pele os efeitos de catastrófica “reforma”.
Não é à toa que em menos de seis meses de governo a popularidade de Bolsonaro vai ladeira abaixo, comparando-se a de Collor de Mello, outro enganador das massas com seu canto de sereia de “guerra contra os marajás”.
Tudo isto, a aprovação da “reforma”, ocorre em pleno avanço do golpe militar preventivo. Ofensiva contrarrevolucionária esta para levar a cabo as três tarefas reacionárias de impulsionar o capitalismo burocrático com suas débeis recuperações da crise, reestruturar o velho Estado impondo regime de centralização máxima de poder no Executivo, e conjurar a grande explosão da luta das massas que se avizinham e o perigo de revolução, evidenciados pelos levantes de 2013-2014, os quais abriram um novo auge do movimento de massas no país.
A tutela do governo pelo Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) tem confrontado resistência da extrema-direita. O grupo de Bolsonaro aposta no caos e utiliza-se dos acontecimentos que agravam a desmoralização das carcomidas instituições para agitar sua base nas tropas e na opinião pública reacionária, visando pressionar um setor do ACFA a tomar parte em seu plano ante o crescimento de sua influência nas tropas. O seu plano é conformar maior opinião pública possível com a retórica de “salvação da pátria”. Na verdade, Bolsonaro só é um obstinado na ideia de que é necessário substituir o atual sistema político por um regime corporativo, como único meio de salvar o sistema de exploração e opressão ameaçado de colapso. Tudo para favorecer ainda mais os latifundiários e grandes burgueses locais e se rastejando mais ainda para o imperialismo ianque.
Para a extrema-direita não há solução possível que não seja a imposição de um regime militar. Para a direita no ACFA, tal saída ainda não se faz necessária, é perigosa, cria instabilidade e amplia o campo de resistência. Tal impasse e luta entre as duas bandas reacionárias é insolúvel e só cessará quando uma subjugar a outra.
Embora não se possa descartar uma solução violenta desta pugna, por ora o mais provável é que o ACFA, trabalhando pelo desgaste “lento, gradual e seguro” do capitão reformado, consiga cozinhá-lo em banho-maria, pois tais generais temem provocar uma profunda fissura nas forças militares e precipitar uma grande crise militar. Este é o maior de seus temores depois da rebelião das massas. Nessa pugna política estão envolvidos os ataques ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso Nacional, por parte da extrema-direita bolsonarista, buscando justificar a subjugação completa destas instituições por meio da instauração de um regime corporativo e fascista.
Só a Revolução de Nova Democracia poderá defender os interesses do nosso povo, cujos direitos aviltados beira à barbárie. Só a Revolução de Nova Democracia poderá libertar a Pátria da pilhagem de suas riquezas e da opressão que a subjuga o imperialismo, principalmente ianque. Só a Revolução de Nova Democracia criará o Estado Popular Revolucionário e construirá o Brasil Novo.


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Editorial - O ensaio geral da Greve Geral de Resistência Nacional 


As manifestações que marcaram a greve geral contra a “reforma da Previdência”, os cortes na educação e pela revogação da “reforma trabalhista” foram a demonstração cabal da agudização das contradições e da luta de classes no país. Acima de tudo, demonstraram o desejo e disposição das massas trabalhadoras do campo e da cidade de não seguir vivendo mais como até então. Querem de volta seus direitos esquartejados e as décadas de trabalho e suor confiscados, querem mudanças, repudiam toda a podridão a que se chegou a política no país, podridão dos que roubaram e roubam e podridão dos que dizem e se fazem passar por caçadores de corruptos. O povo brasileiro quer o Brasil Novo!
A Greve Geral foi um grande triunfo! Aqueles que sempre nutriram o baixo instinto antipovo e apostaram no fracasso da greve quebraram a cara. Freneticamente, pelas “redes sociais”, expelem seu fel esbravejando “foi um fracasso”. O monopólio da imprensa, fazendo-se de imparcial, noticiou com flashes ao longo do dia e nos horários nobres sem maiores gritarias, reservando para o dia seguinte seus vômitos de sempre. O governo do capitão e seus generais fez-se de surdo, mudo e cego. Calma, senhores, vossas senhorias ainda não viram nada!
Considerando todo tipo de sabotagem da máfia sindical, toda a carência de recursos materiais das organizações operárias classistas, todas as ameaças de multas e criminalização pela “justiça”, todo o aparato e abuso de poder das hordas policiais com pressão e intimidação, toda a manipulação midiática dos monopólios de imprensa (que só mostram o que querem) e toda a situação de angústia e temor imperante com dezenas de milhões de desempregados, podemos dizer: a Greve Geral irrefutavelmente foi um grande triunfo!
Sob tais condições, a Greve Geral foi a comprovação de que as amplas massas trabalhadoras anseiam pela luta, pois não contam com mais nada para se defenderem da continuada mutilação dos seus direitos duramente conquistados em décadas de lutas e combates. Muitos dos que foram trabalhar dia 14 de junho sequer sabiam da convocação da greve geral; outros tantos não conheciam seus motivos e demandas, assim como tantos que ainda não se sentem confiantes em enfrentar seus patrões e as ameaças e chantagem da reação incrustada na alta burocracia estatal.
Contribuiu ainda para a adesão em massa à greve geral, além dos covardes golpes contra os trabalhadores já sancionados e anunciados, a paralisia ante a grave crise econômica e social de um governo de valentões, que bravateava “fazer e acontecer”, bem como os recentes vazamentos que desmascaram os paladinos da Operação “Lava Jato”. São patentes o crescente desencanto dos que votaram em Bolsonaro, a descrença nessa velha democracia dos que votaram contra ele e maior ainda a revolta da população que não votou ou votou nulo e branco, no que foi o maior boicote eleitoral da nossa história.
A resistência nacional dos trabalhadores contra o corte de direitos e confisco do povo pelas “reformas” deste governo antioperário, antipovo, latifundista, obscurantista e vende-pátria, também expressa o sentimento patriótico de rechaço aos seus acordos e afagos sabujos e lambe-botas do imperialismo ianque e do Estado sionista/terrorista israelense. Expressa o sentimento popular mais genuíno e não o manipulado, sentimento contra a ofensiva contrarrevolucionária preventiva ao crescente protesto popular. Ofensiva posta em marcha como golpe de Estado, passo a passo, pela via constitucional, a qual se desmascara, facultando às Forças Armadas intervirem para salvar a velha ordem de exploração, opressão, corrupta e genocida em crise de decomposição.
A Greve Geral foi também uma clara resposta não só para toda a reação que hoje, em meio de conluios e pugnas, trama por impor ao povo e à Nação um regime ainda mais opressor. Foi resposta e recado contundente para aqueles que permeando as fileiras das massas, não acreditam nelas e em sua disposição e capacidade de organização e luta. Foi resposta a estes que só apostam nos estreitos limites da legalidade e da manipulação eleitoreira, pois temem acender o vulcão de ressentimentos represados por este sistema que reside nas massas, temem o despertar de sua fúria. Que se corrijam ou se danem.
Fazendo coro com os monopólios de imprensa, o oportunismo, como sempre, busca jogar areia nos olhos do povo a respeito de qual é a principal contradição do país, cuja resposta apresentada por eles, na verdade, são apenas contradições entre os grupos de poder das classes dominantes. Tal como antes, a falsa esquerda queria fazer crer ser a contradição principal entre “esquerda” versus direita, entre PT versus PSDB; agora centram nas contradições entre Bolsonaro versus Mourão, entre Bolsonaro versus Congresso Nacional, entre Bolsonaro versus PT, como se fossem estas expressões da contradição do fascismo versus democracia, quando todas estas são apenas contradições secundárias, internas das classes dominantes, entre tendência para o fascismo versus velha democracia corrupta.
O que expressa a contradição principal do país, que é a contradição entre este sistema de exploração/opressão, seu velho Estado latifundiário-burocrático e seu sistema político corrupto agonizante de velha democracia versus as massas populares, toma forma como contradição entre, por um lado, a ofensiva contrarrevolucionária preventiva em curso (de cujo núcleo são partes Bolsonaro, o Alto Comando das Forças Armadas – ACFA – e demais partidecos da chusma de pastores fariseus e arrivistas delegados de polícia e oficiais militares) versus a Revolução de Nova Democracia. A disputa entre o grupo fascista de Bolsonaro (que predica um regime militar) e o ACFA (que em palavras e juras advoga pela legalidade, porém que na prática conduz um golpe de Estado passo a passo, trabalhando por um regime de concentração máxima do poder no Executivo, de mutilação de direitos do povo e soberania da nação via “reformas” da Constituição vigente) são diferenças táticas transitórias de como melhor salvar o sistema de exploração/opressão ameaçado de ruir.
São só disputas pela direção que a contrarrevolução enfrenta em sua ofensiva. Ao movimento operário, popular e revolucionário só interessa aproveitar da divisão temporária de seus inimigos de morte para lançar ofensivas táticas. Nada mais que isto. Bolsonaro ataca o Congresso e o STF para ganhar o apoio do povo, buscando manipular seu sentimento de descrédito e desprezo por estas instituições para impor o regime militar como única possibilidade de salvar o sistema de exploração e opressão, serviçal do imperialismo ianque, que tanto ama e para o qual faz questão de se rastejar. Mas, este sentimento popular de desprezo às carcomidas instituições e o desejo das massas por sua supressão só podem concretizar-se mediante a Revolução de Nova Democracia, com a derrubada de toda esta velha ordem, e não por um golpe de Estado fascista que objetiva salvá-la da ruína, como trama Bolsonaro.
A Greve Geral foi só o primeiro capítulo de algo colossal que está por vir. Foi o ensaio geral da greve geral por tempo indeterminado e de resistência nacional. Ela anuncia a unificação por todo o país de protestos cada vez mais massivos e violentos. Protestos que se desembocarão num poderoso levantamento de massas que chocará frontalmente com todas estas “reformas” e políticas antioperárias, antipovo e vende-pátria destes governos de partidos e Congresso corruptos, de generais direitistas que se acham donos da República, governos defensores de latifundiários e grandes burgueses, serviçais dos interesses do imperialismo, principalmente ianque. Protestos violentos que irão varrer do caminho toda a politicalha eleitoreira, mentirosa, demagógica e farsante, desencadeando como nunca na história do país a grande e pendente Revolução de Nova Democracia.

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Editorial - Nem Bolsonaro e nem Mourão! Fora Forças Armadas reacionárias! 


Juventude Combatente denuncia crime do Exército em muro do Panteão onde está enterrado o genocida Duque de Caxias durante manifestação da Greve Geral no Rio de Janeiro, 15/05/19. Foto: Mídia 1508.
No Editorial da edição 222 do AND, no qual analisamos a ofensiva da reação ao aplicar um golpe militar preventivo ao inevitável aumento do protesto popular, mostramos as divergências entre direita hegemônica no Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) e a extrema direita, encabeçada por Bolsonaro. Nele indicamos que a luta no campo da reação se delineava para o antagonismo:
“Na situação presente, a extrema-direita, particularmente na figura de Bolsonaro, detém o cargo de Presidente da República, bases no Senado e Câmara, apoio popular (embora em declínio), bases de ativistas fascistas civis e nas tropas policiais e militares ao longo do país, além de apoio de setores do imperialismo ianque e do sionismo. A direita hegemônica nas Forças Armadas detém o poder militar – tanto por força de ser seu Alto Comando, quanto pelos vínculos com as classes dominantes locais e de subjugação nacional com as principais estruturas do imperialismo ianque –, e tem o apoio de grande parte das forças políticas de direita e centro no país, além do apoio da maioria dos governos no continente”.
No espaço de um mês, o antagonismo ficou mais evidente diante da verdadeira baixaria no debate público com as ofensas disparadas pelo guru bolsonarista Olavo de Carvalho, coadjuvado pelos filhos do presidente, e as respostas dos generais.
É importante notar que o anticomunismo de ambos os lados que operam a ofensiva contrarrevolucionária preventiva não tem a força de consolidar sua união, pois ambos buscam a direção do processo e a consequente submissão do contendente.
Bolsonaro, desde quando era candidato e não acreditava em sua eleição, levantava a bandeira de ser contra tudo que está aí, incluindo o legislativo e o judiciário, e qualificando as eleições como uma fraude. Provavelmente, articulava um golpe de Estado, pois afirmava que não aceitaria outro eleito que não fosse ele mesmo. Para tanto, contava com as redes sociais montadas ao estilo Trump, baseadas em reprodutores de fakenews. Contava ainda como seu capital os 30 anos de atividade parlamentar fazendo a defesa do regime militar fascista e seus algozes. Para lograr sua carreira de deputado arregimentou votos na defesa exclusiva dos interesses corporativos das tropas das forças armadas, da polícia federal e das polícias militares, além de que sempre descaradamente defendeu as criminosas “milícias” do Rio de Janeiro.
Já para o ACFA, a luz vermelha do perigo de rebelião acendeu com as revoltas populares de 2013/14, que repudiaram todos os partidos oficiais e principalmente os da “frente popular eleitoreira” e suas organizações de manipulação e empulhação do povo. Os generais, em conluio com o Departamento de Estado do USA, planificaram o golpe de Estado militar contrarrevolucionário para prevenir-se do levantamento geral das massas populares e o desataram com a Operação “Lava Jato”. Para o imperialismo ianque e seus lacaios não havia mais como sustentar e manter a velha ordem de exploração e opressão sem restringir e centralizar ao máximo o poder político no Executivo, mantendo as demais instituições republicanas em funcionamento assessório e servil.
Em um dado momento da campanha eleitoral, tendo a “Lava Jato” afastado Luiz Inácio da disputa e a candidatura de Alckimim fazendo água, o plano golpista conspirou para suspender as eleições e impor a intervenção militar. O malsucedido atentado a Bolsonaro o fez vítima garantindo a sua eleição apenas navegando nas redes sociais com os seus repassadores de fakes.
Restou ao ACFA empalmar o governo para tutelá-lo, através da imposição dos generais do “grupo do Haití” nos principais postos de decisão do Palácio do Planalto. Porém, tão logo tomou posse, Bolsonaro e seu guru iniciaram a reação a essa tutela, na disputa pela direção do golpe por impor seu regime militar fascista. Disputa que nestes cinco meses de governo só se agudizou.
Ainda de acordo com nosso Editorial, “a ofensiva contrarrevolucionária preventiva foi desencadeada pela necessidade premente de enfrentar e dar solução às três tarefas reacionárias pela salvação e preservação do sistema de exploração e opressão semicolonial/semifeudal, em crise de decomposição. São as tarefas de: 1) Tirar o país da crise e impulsionar seu capitalismo burocrático; 2) Reestruturar o velho Estado para impor o regime político correspondente e necessário a manter a velha ordem; e 3) Conjurar o perigo de Revolução através da restrição máxima da liberdade de organização e manifestação das massas, do incremento das leis de criminalização do protesto popular, do endurecimento penal e da escalada da ação violenta dos órgãos de repressão do Estado com a intervenção das Forças Armadas, além da descaracterização e demonização das organizações classistas combativas das massas populares. E se a Revolução se desencadeia, tratar de esmagá-la a ferro, sangue e fogo o mais rápido possível”.
A disputa na cabeça da contrarrevolução é por qual regime estabelecer para levar essas três tarefas a termo. A agonia do sistema político do “toma lá, da cá” ameaça a velha ordem, seu velho Estado e a dominação imperialista, principalmente ianque. O ACFA quer reformá-lo dentro da ordem constitucional, mas Bolsonaro é obstinado em que só com o regime militar pode salvar o sistema de exploração e opressão.
Como se vê, esse antagonismo não poderá se manter por muito tempo, porém não se vislumbra solução pacífica. É bastante improvável que o ACFA recue seus generais palacianos para os quartéis. Por isso passaram a fazer silêncio ante os ataques do guru e filhos de Bolsonaro. Passaram à tática de cozinhar Bolsonaro em banho-maria, a fim de desgastá-lo ao máximo, a ponto de neutralizar a maior parte de suas bases de sustentação nos quarteis.
Por sua vez, Bolsonaro, com suas medidas demagógicas, como acabar com multas e radares de trânsito, liberar a posse de armas, corrigir o imposto de renda e coisas parecidas, tenta manter sua base com apelos populistas.
Nas condições da grave crise do país, em que se delineia iminente crise militar com tal disputa no seio da reação, o mais provável é um desfecho sangrento. Isto porque o ACFA não pode impedir Bolsonaro sem que se levantem fortes reações nos quarteis e tampouco Bolsonaro poderá impor seu regime sem reação militar.
O agravamento desta contradição, ainda que um se imponha rápido sobre o outro, vença quem vencer, só fomentará a crise militar da velha ordem e o impulsionamento da situação revolucionária do país. As massas só têm o caminho da luta para defender seus direitos pisoteados e suas duras conquistas arrancadas, como a “reforma trabalhista”, os cortes na educação, a calamidade da saúde pública e o roubo da “reforma da Previdência”. E esse caminho só pode ser o de elevar sua mobilização em grandes rebeliões. Da greve geral de resistência às batalhas de rua e destas aos levantamentos camponeses. Somente a Revolução de Nova Democracia poderá salvar o país da ruína e dominação imperialista ianque e construir o Brasil Novo, verdadeiramente democrático, popular e independente.

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Editorial - Derrotar a ofensiva da reação plano por plano 


As “reformas” reacionárias antipovo foram lançadas; as políticas de ajuste do capital financeiro imperam; não bastasse a matança policial, as tropas do Exército atiram contra o povo; o presidente em pessoa se encarrega dos atos de servilismo ao imperialismo. Esses são fatos da ofensiva contrarrevolucionária preventiva de quem semeia ventos.
Tal ofensiva tomou a forma de golpe militar de Estado passo a passo. Foi planificada quando das grandes revoltas populares de 2013/14 e deu seu primeiro passo ocultado pela chamada “Operação Lava-jato”. Esta, como meio de salvar do descrédito e da desmoralização as instituições deste velho Estado latifundiário-burocrático, buscava fazer uma faxina nas cúpulas dos partidos oficiais no governo e de sua base. Contudo, ela só fez agravar a crise política, expressando a luta aguda entre os grupos de poder das frações das classes dominantes locais de grandes burgueses e latifundiários, serviçais do imperialismo, principalmente ianque.
A base material dessa crise era já a grave crise econômica do atrasado capitalismo burocrático do país, sob os impactos da crise imperialista que eclodiu no USA, em 2008, e seguia se alastrando mundo afora. Mas a reação do mundo político oficial à “Lava-jato” levou ao impeachment de Dilma, lançando mais combustível na crise. Aproveitando-se das lambanças do PT e para jogar sobre ele a culpa por tudo, a ofensiva contrarrevolucionária levantou uma “cruzada moralista nacional” contra a corrupção, como se essa fosse a causa dos males do país, e não a natureza semicolonial/semifeudal desse putrefato sistema de exploração e opressão secularmente vigente.
Nesse ambiente de crise, as manipulações da opinião pública deram lugar ao caldo de cultura anticomunista histérico. Nele, a ofensiva contrarrevolucionária surfou e deu o segundo passo, impondo Temer no governo, como se salgasse carne podre. A extrema-direita dessa ofensiva se aproveitou para levantar a cabeça agitando a derrubada de Temer. Surge então a disputa pela direção da ofensiva. O processo da farsa eleitoral de 2018 foi o mais desmoralizado e desacreditado de todas suas edições.
Como terceiro passo da ofensiva contrarrevolucionária veio o atentado para matar Bolsonaro, gerar comoção popular e, culpando a esquerda, suspender as votações pela intervenção legal das Forças Armadas, solicitada pelo presidente do STF, Dias Toffoli, já domesticado e sob tutela de um general. Falhou, Bolsonaro sobreviveu e se elegeu sem fazer campanha. Mas essas foram as eleições mais repudiadas da história republicana, com o boicote de 56 milhões de cidadãos (42 milhões de abstenções principalmente, votos nulos e brancos, além dos 14 milhões de jovens de 16 a 18 anos, que se recusaram a cadastrar-se como eleitores).
O quarto passo da ofensiva contrarrevolucionária foi o de empalmar o governo Bolsonaro. Com sua eleição, a extrema-direita passou a disputar com vantagem a direção da ofensiva contrarrevolucionária com a direita hegemônica no Alto Comando das Forças Armadas (ACFFAA). Não por outra razão essa disputa impôs a Bolsonaro, na composição do ministério palaciano, o “grupo do Haiti”, com os generais Augusto Heleno e Santos Cruz, entre outros, por seu prestígio entre as tropas.
Conformou-se, assim, um governo reacionário, sufragado nas urnas e tutelado pelo ACFFAA. Nele, seguramente Bolsonaro não é apenas figura de proa, porém o governo de fato é o das “reuniões de quarta-feira dos generais”, reveladas na crise com Bebianno, que foi defenestrado sumariamente pelo capitão por passar a jogar abertamente a política do ‘toma lá, dá cá’, único modus operandi possível desse agonizante sistema político. Prática que desmascararia de uma só vez e em poucos dias toda verborragia bolsonarista da nova política.
Portanto, a primeira questão de que se precisa ter bastante presente é a de que, de fato, está em curso uma ofensiva contrarrevolucionária preventiva, na forma de golpe militar passo a passo. Que tal ofensiva se move através de conluios e pugnas entre a extrema-direita e a direita hegemônica no ACFFAA. Porém, em determinado momento, uma submeterá por completo sua contendente.
Na situação presente, a extrema-direita, particularmente na figura de Bolsonaro, detém o cargo de Presidente da República, bases no Senado e Câmara, apoio popular (embora em declínio), bases de ativistas fascistas civis e nas tropas policiais e militares ao longo do país, além de apoio de setores do imperialismo ianque e do sionismo. A direita hegemônica nas Forças Armadas detém o poder militar – tanto por força de ser seu Alto Comando, quanto pelos vínculos com as classes dominantes locais e de subjugação nacional com as principais estruturas do imperialismo ianque –, e tem o apoio de grande parte das forças políticas de direita e centro no país, além do apoio da maioria dos governos no continente.
A ofensiva contrarrevolucionária preventiva foi desencadeada pela necessidade premente de enfrentar e dar solução às três tarefas reacionárias pela salvação e preservação do sistema de exploração e opressão semicolonial/semifeudal, em crise de decomposição. São as tarefas de: 1) Tirar o país da crise e impulsionar seu capitalismo burocrático; 2) Reestruturar o velho Estado para impor o regime político correspondente e necessário a manter a velha ordem; e 3) Conjurar o perigo de Revolução através da restrição máxima da liberdade de organização e manifestação das massas, do incremento das leis de criminalização do protesto popular, do endurecimento penal e da escalada da ação violenta dos órgãos de repressão do Estado com a intervenção das Forças Armadas, além da descaracterização e demonização das organizações classistas combativas das massas populares. E se a Revolução se desencadeia, tratar de esmagá-la a ferro, sangue e fogo o mais rápido possível.
Embora a extrema-direita bolsonarista e a direita hegemônica do ACFFAA sejam como carne e unha no anticomunismo americanófilo, elas travam entre si uma luta surda. Apesar das aparências dos bate-bocas de hoje, ela já é luta sangrenta. O que foi o atentado a Bolsonaro? Foi parte da disputa pela direção da ofensiva contrarrevolucionária preventiva em função de qual desfecho dar ao golpe em marcha. Isto é, que tipo de regime conformar em substituição ao desmoralizado e agonizante sistema político atual. A extrema-direita de Bolsonaro só crê no regime militar fascista e está buscando acumular forças para consumá-lo. Ele e sua camarilha fazem a conta de que quanto mais se aprofundar a crise do país, maiores serão as chances de seu projeto ganhar a maioria nos meios militares. A direita, hegemônica hoje no ACFFAA, também se bate por um regime de máxima centralização de poder no Executivo, porém mantendo um legislativo e judiciário submissos e a preservação mínima de direitos civis. É a lição tirada da história recente pelo ACFFAA, cuja conclusão é a de que o caminho de Bolsonaro não pode se sustentar por muito tempo e, ao impor-se, já ampliaria o campo de oposição e de resistência ao governo, que terá tarefas dificílimas de se implementar.
A segunda questão a se ter presente é a de que o plano da ofensiva contrarrevolucionária preventiva, através do golpe militar passo a passo, é parte do plano dos imperialistas ianques para ampliar e aprofundar como nunca a militarização do continente sul-americano, com maior ênfase no Brasil. Afinal, o incremento das pressões sobre a nação e povo venezuelanos persegue qual objetivo imediato? Derrubar um governo que lhes entrega sagradamente todo o principal de sua riqueza natural, o petróleo? Ou, isto sim, atiçar ao máximo conflitos regionais para justificar o estacionamento de suas tropas genocidas no território brasileiro? Por que, neste mesmo instante, se apressaram em estabelecer “cooperação científica” exatamente na Base de Alcântara? Bolsonaro, que pelo menos fala rasgado o que defende, pôs a nu que o objetivo em Alcântara é de estabelecer a base militar dos ianques. Ele foi ao USA para firmar o tratado vende-pátria e recebeu em troca o regalo de que o Brasil passa a ser considerado seu “aliado estratégico extra-OTAN”. Status que corresponde ter a primazia em receber material bélico estratégico, situação que levará a intensa movimentação de pessoal militar ianque em solo e unidades militares brasileiras. Ou, ainda, o que significa, senão isso, a nomeação agora de um general brasileiro para assento no “Comando Sul das Forças Armadas” do USA? Mais? Vale lembrar que o Almirante Craig S. Faller, comandante de dito Comando Sul, foi recebido com pompa e circunstância, em fevereiro último, na Brigada de Infantaria Paraquedista, no Rio de Janeiro.
Também é fato, por mais que os economistas do mercado financeiro o tergiversem, que a crise do capitalismo burocrático no Brasil é grave. E, dentro da crise geral do imperialismo e crescente desordem mundial, os capitalistas locais e estrangeiros desconfiam que ele entrou num estágio de crise geral. O Brasil é a situação mais explosiva abaixo da Linha do Equador, justamente quando se agudizam todas as contradições fundamentais no mundo, principalmente a contradição que opõe nações/povos oprimidos ao imperialismo, com o incremento das guerras de rapina e o levantamento sucessivo dos povos dos países oprimidos na Ásia, África e América Latina. Quando os povos do Iraque, Afeganistão, Síria, Palestina e outros repelem pelas armas o imperialismo invasor, e na Índia, Peru, Filipinas e Turquia as guerras populares erguem altas as bandeiras da Revolução de Nova Democracia, e nos próprios centros imperialistas as massas lutam com fúria em defesa de seus direitos mais elementares pisoteados e por sua libertação. Quando a luta por nova partilha do mundo se agudiza e a superpotência hegemônica única USA vê ameaçada sua dominação mundial. Por acaso o USA vai assistir de camarote o incêndio se alastrar por seu “quintal”?
A terceira questão necessária de se ter presente e bem claro é a de que, embora não se possa saber de imediato qual das forças da reação se imporá em determinado momento, só a luta revolucionária poderá confrontar consequentemente qualquer dos regimes que prevaleça. Nem Bolsonaro e nem Mourão, abaixo as Forças Armadas reacionárias! Mais ainda, devemos ter certeza de que só através da luta revolucionária prolongada se poderá unir a maioria das massas do campo e da cidade, levar a Revolução Agrária a termo, entregando a terra aos camponeses pobres sem terra e com pouca terra, confiscar o capital burocrático e varrer a dominação imperialista. Por mais dura que será a luta e por mais que possa demorar, a Nova Democracia triunfará, o nosso heroico povo se colocará de pé e erguerá o verdadeiro Brasil Novo!

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Editorial - Greve Geral de Resistência Nacional 


A promessa de mudar “tudo isto que está aí” espargida com estridência durante a campanha eleitoral, enganando dezenas de milhões de eleitores como mudança para melhor, em menos de três meses vai se confirmando como mudança para pior.
A pregação de Bolsonaro contra o toma-lá-dá-cá se revela pífia bravata, comprovando que só mesmo nesta base pode funcionar o agonizante e corrupto sistema político deste putrefato Estado latifundiário-burocrático.
Por sua vez, em conversa entre o defenestrado Bebianno com o presidente da República, este revelou a ocorrência de reuniões das “quartas-feiras dos generais” da qual nem todos participam, ou seja, reunião do governo militar secreto do Alto Comando das Forças Armadas, que é quem dá as cartas de fato desde que este mesmo Alto Comando “emparedou” Bolsonaro para institucionalizar seu golpe contrarrevolucionário  preventivo, desencadeado bem antes das eleições.
O governo militar secreto é evidente, pois tem em postos chaves da operação do Estado a concentração de generais alinhados ao Alto Comando, generais que se fazem presentes no Planalto (o grupo do Haiti) e na área mais sensível das contradições de classe, entre camponeses e latifundiários (Incra). Enquanto isso, nos demais postos há notáveis reacionários, como na Economia com um “Chicago boy”, no Ministério da Justiça com um agente extra-FBI, na Educação com um religioso fundamentalista e nas Relações Exteriores com um americanófilo lambe-botas, deixando claro que a natureza do governo tutelado pelo Alto Comando das Forças Armadas reacionárias é latifundista, anti-operária, obscurantista e vende-pátria.
Por meio da ofensiva contrarrevolucionária preventiva, sua “missão” é reestruturar o Estado, adequando seu sistema político de governo, no melhor dos casos, a um presidencialismo absolutista para salvar e impulsionar este simulacro burocrático de capitalismo, submisso ao imperialismo, principalmente ianque, e conjurar o perigo de Revolução.
Ao nomear Paulo Guedes e Sérgio Moro como dois “superministros”, ampliou o domínio do latifúndio com a entrega da administração da questão fundiária aos abutres do agronegócio, assegurando legalizar a grilagem das terras indígenas, quilombolas e os restantes milhões de hectares de terras da União. Para tanto, ademais de suspender dívidas de multas do Ibama e escancarar as carteiras de crédito agrícola subsidiado aos latifundiários, nada melhor do que liberalizar as ações dos bandos paramilitares a serviço da agressão latifundiária. Ao sistema financeiro internacional e brasileiro, promete privatizar os bancos públicos, além de aumentar as garantias contra a inadimplência, através do cadastro positivo. Como prova imediata a quem serve, ofertou a “reforma da Previdência” aos sanguessugas e parasitas da Nação, banqueiros e demais corporações estrangeiras e locais, para, de um só golpe, retirar dos trabalhadores R$ 1 trilhão por ano e entregar aos bandidões de mão beijada.
E, mesmo diante de tamanho crime anunciado, ainda temos de ouvir dos nefastos monopólios dos meios de comunicação (por exemplo, o editorial do Estadão, de 19/03/2019) que o atual presidente não tem programa ou sequer qualquer plano de governo, quando tudo tem sido feito de caso pensado. Na posição pseudoliberal de quem se opõe aos extremos, tergiversam sobre um saudoso e cômodo centro que a gravidade da crise não permitirá mais, fingem ser outra a realidade escamoteando o golpe militar em curso e que se institucionaliza. Pusilânimes, se omitem em denunciar o governo militar secreto que é quem de fato governa, preferindo ocupar-se das fanfarronices de um presidente que ora as comete por diversionismo, ora para remarcar suas posições retrógradas no intuito de formar opinião pública, nos meios militares e na população, para o objetivo que sempre predicou e busca estabelecer: a ditadura militar fascista pró-ianque. Como acabou de dar provas cabais com suas declarações e rastejante conduta na visita oficial ao USA.
Contudo, para consumar tal plano, a reação sabe muito bem e de cor que terá que defrontar-se com o protesto e a rebelião populares. E não é outro o motivo da sua ofensiva contrarrevolucionária preventiva. Foi aproveitando-se da reforma na legislação sindical, feita para enfraquecer a resistência dos trabalhadores, contando já com a situação de enfraquecimento dos sindicatos gerado pelo colaboracionismo dos pelegos lulistas, que Bolsonaro apressou-se em editar a Medida Provisória 873, para golpeá-los mais, dificultando que os trabalhadores, sócios e não-sócios, contribuam com os seus sindicatos.
Os economistas amestrados nas escolas de correção imperialistas e os meios dos monopólios de comunicação esbravejam a toda hora com a chantagem de que a “reforma” que anda a passos de cágado representa a única providência capaz de livrar o Brasil de uma crise mais profunda ainda. Ou seja, para salvar os ricos é preciso tirar o couro dos trabalhadores. Não basta entregar o pré-sal e as reservas minerais, os aeroportos, as Universidades etc.: eles têm que levar a cabo uma completa política de terra arrasada ao povo e ao que resta de soberania nacional. E para tal há que restringir as minguadas liberdades de organização e manifestação, mais criminalização e mais repressão a luta das massas.
O governo dos ricos, que se aprofunda como ofensiva contrarrevolucionária preventiva, só fez criar uma situação objetiva dentro da qual os trabalhadores de todas as categorias só podem responder com sua unidade em torno de uma Greve Geral de Resistência Nacional, que rechace de pronto qualquer manobra de negociar a perda de direitos dos trabalhadores e centre na sua mobilização e preparação em defesa dos direitos já suprimidos e dos demais ameaçados.
A palavra de ordem, já levantada pelos setores mais combativos do movimento sindical e operário, inclusive do movimento dos camponeses pobres e médios, também é decisiva para arrastar aquelas massas que, por décadas, foram aprisionadas no imobilismo militante das cúpulas da aristocracia sindical curtida em acordos palacianos.
Quando falamos em Resistência Nacional é para alertar o povo brasileiro de que, ademais dos seus direitos pisoteados, a Nação está a dois passos de ser mais e duramente violada. Seja com a instalação de base militar ianque no solo pátrio, seja em arrastar-se na aventura covarde contra a nação e o povo venezuelanos. Todas as maquinações armadas pelo mesmo imperialismo ianque em seu afã por apagar o fogo que ameaça alastrar-se em seu quintal e em suas pugnas por manter sua condição de superpotência hegemônica única, quando os sinais de nova e maior crise geral do imperialismo são alarmantes.
Importante destacar aqui, quando da greve dos caminhoneiros ano passado, lembrar a grande unidade que se formou em torno daquele movimento no qual o proletariado, o campesinato, a juventude e o povo em geral, mesmo sofrendo as consequências do movimento que desabastecia o país, deram uma formidável manifestação de solidariedade proletária.
A crise que há cinco anos afunda o Brasil, com a farsa eleitoral se aprofundou ao tragar para seu centro a cúpula militar com seu golpe contrarrevolucionário. Não podem dar solução a nenhum problema nacional e do povo. A única saída para o povo brasileiro e o Brasil é conquistar a nova democracia por meio da Revolução.

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Editorial - Quem governa o país 


Os primeiros trinta dias de governo evidenciaram em fatos toda a inconsistência de Bolsonaro e sua camarilha, ao tempo que se comprova ser seu governo um biombo constitucional donde oculta-se o golpe militar contrarrevolucionário preventivo, desatado pelo Alto Comando das reacionárias Forças Armadas. Os meses seguintes tratarão de deixar patente que Bolsonaro só pode desempenhar o papel de máscara de proa, e ainda assim, até onde e enquanto for útil.
A começar pela questão básica tão enfatizada em suas promessas de mudar “tudo que está aí”. Apurações de irregularidades com dinheiro público envolvendo o filho, o senador Flávio Bolsonaro e seu relacionamento com chefes de milícias do Rio de Janeiro, já dividiram o próprio núcleo bolsonarista. O besteirol exibido por colaboradores em nível de ministério, como os ministros Damares Alves e Ernesto Araújo, este último ministro das Relações Exteriores, ambos que insistem em dar prioridade a questões ideológicas como o que chamam de  “questão de gênero”, “politicamente correto”, “marxismo cultural” e a “Escola sem Partido”, só serve de cortina de fumaça para encobrir as tratativas para passar a “reforma da previdência”, além de chocar com a pauta de Paulo Guedes. A defesa aberta por Bolsonaro da transferência da Embaixada brasileira de TelAviv para Jerusalém e da instalação em território brasileiro da base militar do USA custou-lhe contestação e desmentidos por subalternos e comandantes. A mudança da Embaixada foi esvaziada acintosamente pelo vice, general Mourão, enquanto recebia representantes de países árabes. A base do USA gerou irritações, a ponto de provocar verdadeira passagem de pito público ao presidente do país, por abrir totalmente o jogo secreto do Alto Comando militar.
Outra faceta é o distanciamento da imprensa gerado pela persistência de se comunicar com seu público de repassadores aloprados via internet, comandado pelos “garotos” de Bolsonaro, crias medonhas de Olavo de Carvalho.
Coisas assim distraem a atenção da opinião pública, dos comentaristas e analistas da política mundana, enquanto o governo, nos bastidores e de fato, se impõe.
Situação esdrúxula que é aproveitada pelo general Mourão para ampliar sua presença no governo, dispensando atenção a jornalistas, fazendo inclusive correções a declarações de Bolsonaro e sua camarilha em confabulações com correspondentes estrangeiros. O general Mourão das declarações na Maçonaria – em que  pregou golpe militar, defendeu uma nova constituição elaborada por notáveis e outras pérolas do reacionarismo, como apoiar uma intervenção militar na Venezuela – repentinamente deu lugar a um Mourão moderado e comedido. Tal transmutação só cabe ser concebida como produto de importante orientação, ou melhor, de uma ordem. É mais um passo ofensivo na usurpação do governo Bolsonaro pelo Alto Comando militar, medida em prol de minimizar estragos que poderão desgastar, mais cedo que se imagina, o iniciante governo.
Entre pequenos choques e trombadas vai se confirmando a desconfiança que o Alto Comando das Forças Armadas reacionárias sempre nutriram a respeito do capitão, que fora há mais de três décadas reformado por questões disciplinares. A propósito, Bolsonaro na verdade foi afastado, por sua ligação com ações terroristas da extrema-direita em represália à chamada “abertura” do regime; ações que ele procurou vincular a reivindicações da tropa, na tentativa de usar descontentamentos corporativos dos militares como protestos contra o fim do regime fascista iniciado em 1964. E foi uma chicana no Superior Tribunal Militar que livrou Bolsonaro de medida extrema de punição, possibilitando seu ingresso na política eleitoreira, na qual promoveu sua carreira de mais de 30 anos de político profissional, notavelmente medíocre até então.
Sete ministros de Bolsonaro são militares, e quando o ministro é civil há um militar como secretário geral do ministério. Áreas estratégicas do Estado e, particularmente, postos chaves da operacionalidade de governo estão sob o controle absoluto do Alto Comando das Forças Armadas. O golpe militar contrarrevolucionário preventivo foi desatado bem antes do processo eleitoral, se instalando neste governo (que não foi de sua escolha) como produto das circunstâncias e transitoriamente tomando a forma de um governo sufragado nas urnas da farsa eleitoral. Trata-se de necessidade imperiosa das classes dominantes e do imperialismo, pela salvação do secularmente vigente sistema de opressão e exploração do povo e de subjugação nacional, ameaçado em seu funcionamento pela grave crise econômica, política, moral e social. 
A conformação e funcionamento do governo, por detrás de todo o cacarejo sobre “reformas” necessárias e salvadoras, em meio das trapalhadas e revelações de escândalos que envolvem o clã Bolsonaro e sua camarilha, abrigam uma disputa interna sobre o regime a ser estabelecido. A visão fascista e messiânica do presidente eleito apresenta-se demasiadamente temerária aos Altos Mandos militares, pois expõe crua e descaradamente o jogo pró-ianque. Em sua missão, o governo militar secreto, que os Altos Mandos operam, maneja para que o golpe contrarrevolucionário tenha o máximo de cobertura e aparência legal, de modo a não precipitar a ampliação do campo de resistência a ele.
Ao contrário do que se procura fazer crer, a grave crise em que se arrasta o país há mais de cinco anos não encerrou-se com as eleições, ela apenas mudou sua qualidade. Aprofundou-se, trazendo para seu centro as Forças Armadas, por meio do plano golpista de seu Alto Comando, que empalmou o governo. As pugnas entre as frações das classes dominantes locais, em meio e como parte da formidável crise geral, não pode mais ser resolvida via eleições. Daí que se desatou o golpe militar buscando ocultar-se na forma de um governo constitucional.
Dentro da crise geral que vive o imperialismo e o país, o imperialismo ianque incrementa sua militarização no continente e impõe a este malfadado governo levar a cabo três tarefas reacionárias, urgentes e incontornáveis: 1) tirar o país da crise e impulsionar seu caduco capitalismo burocrático; 2) reestruturar o velho Estado conformando o regime de centralização máxima do poder no Executivo (presidencialismo absolutista); e 3) conjurar o perigo de revolução e, se ela eclodir, aplastá-la prontamente a ferro, fogo e sangue.
A fração compradora da grande burguesia brasileira predomina no governo com Paulo Guedes, porém confronta-se com a resistência da fração burocrática ao propósito do superministro de reformar o Estado cartorial, privatizar bancos estatais e empresas do setor de energia, bem como na pertinácia da cúpula militar por manter os privilégios previdenciários dos Altos Escalões da Força, altamente dispendiosos ao erário. O outro superministro e americanófilo Moro enviou seu pacote de endurecimento do Código Penal para elevar as penas, aumentar o encarceramento de contingentes ainda maiores da população empobrecida e de cerco às práticas corruptas inerentes ao sistema e das quais a canalha eleitoreira não renuncia. Logo tipificará de terroristas organizações políticas e movimentos populares revolucionários.
Estas e outras contradições internas do governo, que obrigatoriamente se refletem no Congresso, já no decorrer dos próximos meses de embates da “reforma da previdência” provocarão sérias dores de cabeça aos que, de fato, governam o país. A aplicação de mais medidas anti-operárias e vende-pátria, bem como a repressão à luta popular, agravarão a crise política.
Do lado do povo, inclusive da minoria que elegeu Bolsonaro, a desilusão faz-se cada vez que o bolsonarismo anuncia em medidas uma administração voltada aos interesses dos mais ricos, do sistema financeiro internacional e da expansão militar do imperialismo ianque, revelando ser a mesma velha política de sempre. Os trabalhadores vão tomando consciência desta realidade, buscando formas de protesto e de se preparar para grandes combates, a começar pela proposição da greve geral de resistência ao assalto a seus direitos.


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Editorial - Um governo anti-operário e vende-pátria 


Bolsonaro tocou a sua campanha repetindo o bordão de ser “contra tudo que está aí”. Pescador de águas turvas, cavalgou a insatisfação das massas já descrentes de obter do gerenciamento petista mudanças efetivas que acabassem com o desemprego e desse condições dignas de educação, saúde e segurança.
Depois da “facada”, saiu do palanque para as redes sociais a proclamar ser um enviado de Deus, que “acabara de salvar sua vida”. Com o respaldo do “todo poderoso” do céu e do “todo poderoso” da terra (o mercado), Bolsonaro foi encampado pelos altos mandos das Forças Armadas reacionárias, que já haviam posto em marcha o plano de um golpe militar preventivo à inevitável rebelião das massas, povo já cansado de tantos desmandos, injustiças e podridão.
Eleito, como de praxe, entregou ao mercado a condução da política econômica, esta feita pelas mãos de um aventureiro especulador, sabujo declarado do imperialismo ianque. Tal foi a ânsia entreguista de Paulo Guedes que em dez dias de gerenciamento apareceram as primeiras trombadas com a demagogia pseudo-nacionalista de Bolsonaro. Veja-se o caso da Embraer.
A conformação de um governo tutelado pelos altos mandos das Forças Armadas para levar ao extremo a subjugação nacional, longe de ser uma panaceia, só fará agravar a mais profunda crise do capitalismo burocrático, base de toda crise política e moral na qual se arrasta o Brasil. A centralização da política econômica nas mãos do lumpesinato mercantiflero já deixa em sobressalto a própria direita esclarecida que maneja os monopólios da imprensa. Com os superpoderes investidos ao agente ianque e xerife da “Lava Jato”, a cruzada moralizadora que agudizou a crise no seio das classes dominantes locais agora aprofundará a pobreza e miséria para os trabalhadores e sua mais cruel repressão com o regime policialesco.
Como fez Bolsonaro, no seu primeiro dia, rebaixando o valor do salário mínimo, outras medidas já estão engatilhadas visando exacerbar a exploração da força de trabalho e a piora da assistência social, da educação, da saúde e da maior militarização dos locais de moradia do povo, com o consequente aumento da repressão e genocídio dos pobres, dando rédeas soltas às práticas e instintos sanguinários nas quais as Forças Armadas adestraram-se no Haiti.
Ao declarar que a questão ideológica é principal à corrupção (entendendo a questão ideológica como as questões de “gênero”, o “politicamente correto” e o “marxismo cultural”), além da defesa da entrega de território pátrio para base militar ianque, Bolsonaro usa tudo isto como cortina de fumaça para encobrir o continuísmo da politicalha do “toma lá-dá cá” e para forjar justificativa ideológica ao seu projeto vende-pátria verde-amarelo.
Como mostram as pesquisas de opinião, o povo brasileiro repudia esta nefasta e arreganhada aproximação lacaia com o USA, que abriu demais o jogo e irritou a caserna, desde os que abominam tal ato àqueles que, nos altos mandos, tomam parte destas tratativas de traição à pátria, porém se dissimulam na busca de formar opinião pública para a consecução do crime.
Ao dar prioridade à construção de presídios ao invés de investir na criação de emprego, cuja falta já condena 27 milhões de brasileiros, Bolsonaro e Moro miram tão só nas políticas repressivas das consequências de uma sociedade semicolonial e semifeudal, jogando para a plateia com o drama que já se tornou a segurança pública. A gravidade da crise, porém, vai muito além da crise fiscal do velho Estado, usada oportunisticamente para acelerar a “reforma da previdência”, ou seja, a destruição da Previdência Social para se impor o sistema privado de seguridade entregue aos bancos.
As classes dominantes locais – grandes burgueses e latifundiários – e os imperialistas, principalmente ianques, sabem que não podem mais manter sua dominação sem uma nova reestruturação de seu velho Estado, seja ela nos moldes constitucionais de centralização absolutista do poder no Executivo, ou nos moldes do fascismo aberto. Neste intento terão que, mais cedo do que tarde, rasgar outra vez suas vestes e seu véu democrático. No problema agrário-camponês (ruptura ou manutenção do sistema latifundiário de propriedade da terra) e nacional (manutenção da subjugação nacional ou nacionalização da banca, da indústria, do transporte, do comércio exterior, produção nacional, pesquisa e desenvolvimento tecnológico, tudo de forma autocentrada e autossustentada) está o nó górdio da tragédia nacional.
A experiência política nacional dos sucessivos governos de turno, dos mais diferentes partidos, tem resultado em fracassos e frustração das massas populares em seus anseios mais mínimos. Isto tem levado crescentemente grandes contingentes a se darem conta de que só o fim deste sistema de exploração e opressão poderá satisfazer suas necessidades básicas materiais, espirituais e as de uma Nação liberta e justa. Os enganos eleitoreiros e messiânicos só podem adiar seu necessário fim, porém com isso só represam mais, fermentam e potenciam a rebelião.
Portanto, os graves problemas de nosso país têm raízes profundas, sendo a questão democrática e nacional o mais atravancado de nossa história, pendente de solução. A demanda por essa solução só faz crescer e imensa é o acúmulo de energia para convertê-la em fatos. Só a revolução democrática profunda e radical pode dar-lhe vazão e realização. Tal situação independe da vontade de quem quer que seja. Por isso o imperialismo, principalmente ianque, e seus lacaios da colônia, especialmente seus gendarmes dos altos mandos das Forças Armadas que cultuam o doentio anticomunismo, tremem frente a simples ideia da revolução. Por isto mesmo necessitam demonizá-la à exaustão.
A crise política não terminou (enganam-se os que falam de “união nacional”), mas apenas mudou sua qualidade. O advento do governo Bolsonaro trouxe para o centro dessa crise o último bastião de sustentação do caduco sistema de exploração e opressão em franca decomposição: as Forças Armadas, através de seus altos mandos. O fracasso inevitável do atual governo e regime em gestação será destes que, em última instância, são os responsáveis pela tragédia brasileira, muito ao contrário do que predicam aos quatro ventos. Tudo de podre que aí está resulta da carência duma revolução democrática triunfante, cujas tentativas ao longo de nossa história foram aplastadas por esta gendarmaria a ferro, fogo e sangue. Tal crise dará início também ao fim da sua mistificação patrioteira de defensora do povo e da pátria.
Ademais, as contradições do atual regime em conformação não são poucas e nem tão pequenas. A fração compradora da grande burguesia domina com Paulo Guedes, porém a fração burocrática tem nos generais “nacionalistas” seus porta-vozes presentes na direção do governo. Bolsonaro tagarela entre as duas. Até onde e quando ele, governando só com diatribes, será de valia para o plano contrarrevolucionário em marcha dos que empalmaram seu governo para levá-lo a cabo?
 A luta de classes, senhores, continua, e num patamar novo!



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