segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A violência contra as mulheres como regra no “futebol ostentação”, parte da ideologia reacionária do capitalismo


Na última semana mais um escândalo de violência sexual envolvendo “celebridades do futebol” veio à tona com a prisão preventiva de Daniel Alves, acusado de estuprar uma jovem espanhola numa boate de luxo em Barcelona, na Catalunha, no final de dezembro passado. O jogador foi preso preventivamente pela justiça espanhola e demitido por justa causa do Pumas, time mexicano pelo qual jogava. Algumas personalidades e mesmo o monopólio de imprensa anunciaram o fato com estranheza e estarrecimento. Mesmo diante de tantos indícios de culpa e incoerências nos depoimentos do pseudoatleta (mudou de versão por três vezes: primeiro disse que não conhecia a jovem, depois afirmou que só esbarrou com ela no banheiro e logo já mudou a história dizendo que teve relações sexuais consensuais) há quem ainda consiga expressar opiniões como “não se pode condenar o sujeito” porque “ainda não passou por um julgamento”. Ora, não faltariam seus cupinchas de extrema-direita para defender um “bom cidadão brasileiro” que defende “o Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”.

A lista de jogadores de futebol, brasileiros, acusados e/ou condenados por violência sexual é extensa. Num rápido levantamento podemos nos lembrar de alguns casos que vieram a público: Cuca, antes de ser treinador, foi condenado em 1987 na Suíça por estupro coletivo de uma garota de 13 anos. Bruno, o ex-goleiro, foi condenado por homicídio triplamente qualificado, sequestro e ocultação de cadáver de Eliza Samúdio, mãe de seu próprio filho, em 2010; Mancini, acusado em 2010 de estuprar uma mulher desacordada em Milão, foi condenado; Danilinho acusado de estupro e ameaça de morte a uma mulher em 2013 no México; Robinho, que está condenado pela justiça Italiana por estupro coletivo de uma jovem albanesa de 23 anos em 2013, está foragido no Brasil curtindo uma praia em Santos; Jobson, acusado de estupro de quatro adolescentes em Conceição do Araguaia, no Pará, em 2016; Neymar, que acusado de estupro pela modelo brasileira Najila Trindade, em 2019, contando com apoio infame dos monopólios de imprensa e silêncio cúmplice das feministas burguesas, ainda conseguiu sair de “bom moço” em parte da opinião pública. Com tantos “escândalos” e outros tantos encobertos, não só no Brasil, talvez seja esse o “padrão FIFA” para o comportamento dos “superastros”.

Longe de ser uma exceção à regra, o caso de Daniel Alves apenas confirma o que a ideologia burguesa individualista, prepotente e arrogante, machista e misógina, dominante entre tais “celebridades”, é capaz de gerar e reproduzir como comportamento degenerado e decadente. Não é para menos. A prática esportiva que deveria ser parte da formação completa do Homem*, física e intelectual, é distorcida no capitalismo. A “indústria do futebol” é um negócio extremamente lucrativo, e, ao mesmo tempo, disseminadora ideológica de uma moral reacionária, influenciando massivamente jovens no mundo inteiro. Em nosso país, não precisamos dobrar a esquina para ver crianças e jovens das classes populares deslumbrados com uma vida que nunca poderão ter, copiando o cabelo, tatuagens, roupas, sonhando em ser jogadores de futebol milionários para usufruir de toda a ostentação com viagens, baladas, carros de luxo, e, como parte do pacote, a ideia de possuir quantas e quais mulheres queiram, da forma que bem queiram. A violência contra as mulheres, nesse sentido, é apenas expressão e consequência prática dessa ideologia que serve a apartar da luta de classes as massas – atingindo particularmente os jovens – desarmando-as, deixando-as incapazes de analisar e defender seus próprios interesses de classe. Ou não há interesse de classe também no futebol? A quem serve toda cobertura midiática milionária senão aos grandes capitalistas que investem em estádios, clubes e jogadores? E como um negócio que explora e mobiliza milhões de massas em todo mundo disseminaria ideologia diferente dos interesses do imperialismo?

Essas “celebridades” costumam apresentar como argumento para o indefensável, que são vítimas de gente “inescrupulosa” que “querem se dar bem às custas de sua fama e dinheiro”, invertendo seu papel de algozes em relação às suas vítimas. Neymar foi o coitadinho que bateu na modelo e a violentou “porque ela quis”, que ela teria “armado” contra ele. E agora, como Daniel Alves vai usar desse argumento contra uma jovem que afirma que não quer um centavo da sua fortuna?

Muitos desses jogadores um dia foram garotos pobres sonhadores de ser grandes “ídolos” do futebol. Provavelmente assistiram muitos programas de TV mostrando que a pobreza se vence com “superação individual” e não com a transformação da sociedade, com a luta de classes pelo fim da exploração e miséria. A intensa e sistemática promoção do mundo do futebol exercida sobre as crianças e jovens, gerando expectativas, fantasias e frustrações, aos que escalam a fama o deslumbramento, os tornam dóceis instrumentos do sistema ao curvarem a cabeça e se prestarem aos interesses alheios à sua classe de origem. Cumprem assim um papel nefasto à luta do proletariado e demais classes populares pelos seus direitos sempre pisoteados e por uma nova sociedade. São incapazes de se posicionarem ao lado das massas diante das maiores misérias e atrocidades cotidianas de que padecem. Ao contrário, colocam sua imagem a serviço de gente fascista, de extrema-direita, gente que odeia pobres, manipulando as massas.

Como sempre, nesses momentos o monopólio de imprensa tenta esconder sua parcela de responsabilidade como propagandistas e incitadores desse comportamento. Incentiva o comportamento degenerado dos esportistas, promove a idolatria bestializada em consonância aos interesses de valorização de seus passes e relativiza e suaviza seus crimes quando os cometem. Quando a coisa se escancara e não é mais possível atenuar, trata como se fosse um desvio de conduta individual, e não parte do comportamento de classe o qual estimula todo o tempo. O mesmo monopólio de imprensa (com a rede globo à cabeça), expressando toda a sua demagogia, cinismo e hipocrisia, posando de arautos da “defesa das minorias” e “defesa das mulheres”, etc., estimula pornografia, glamoriza a prostituição (aberta e velada) e utilização da mulher como objeto sexual diuturnamente falando de seu “empoderamento”.

Oportunistas e reformistas de toda ordem tecem os mais amplos elogios à justiça espanhola pela “eficiência” da prisão de Daniel Alves, vendendo a ideia de que a violência contra a mulher pode ser resolvida nos marcos do capitalismo. A sórdida e milenar violência contra a mulher não pode ser resolvida cabalmente por via legal, nos marcos do sistema capitalista, em nenhum lugar do mundo. Ao lutarmos por leis que favoreçam o progresso geral da condição das mulheres e garantias de mais direitos que devemos fazê-lo, sem qualquer ilusão nesse sistema, como forma de mobilização para a transformação radical da sociedade. Toda lei nesses marcos também tem caráter de classe e não será através delas que derrubaremos a base social reprodutora da opressão feminina em todas as esferas.

É necessário dar o combate mais duro a todas essas concepções reacionárias. O fim da violência contra a mulher só pode se realizar numa Nova sociedade. A origem e a causa da opressão feminina é a propriedade privada, bem como o patriarcado e a divisão da sociedade em classes antagônicas dela derivadas, que serve e reproduz a exploração e opressão do Homem pelo Homem. Somente com a erradicação completa desses fatores e sua substituição por novas relações de produção, baseadas na propriedade social dos meios de produção e distribuição da riqueza, pode conduzir a emancipação das mulheres ao emancipar politicamente a classe operária e demais classes trabalhadoras. Ou seja, a revolução social do proletariado – composta de homens e mulheres – para o estabelecimento do socialismo como transição para a sociedade sem classes, o comunismo. Somente numa prática revolucionária, destruindo esse velho e caduco mundo é possível construir o Novo Homem e a Nova Mulher. Também podemos afirmar que uma prática esportiva plena para as massas, baseada em uma concepção coletivista e cooperativista, livre de todo interesse capitalista, em que esses “ídolos” do velho e caduco mundo não terão mais espaço, só se dará nessa Nova Sociedade e um Novo Mundo.

Despertar a fúria revolucionária da mulher!

MFP – Movimento Feminino Popular

 

* Homem aqui está colocado como gênero humano, incluindo homens e mulheres.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023