terça-feira, 19 de junho de 2018

A Família e o Estado Socialista - Alexandra Kollontai


A Família e o Estado Socialista

Alexandra Kollontai

1. A Família e o trabalho assalariado da mulher.

Conservar-se-á a família no Estado comunista? Será esta a mesma e com a missão que tem hoje? Eis aqui uma questão que atormenta a mulher da classe operária, e do mesmo modo os seus companheiros, os homens. Nestes últimos tempos este problema ocupa particularmente os espíritos no mundo dos operários, e isto não deve surpreender-nos, já que a vida muda ante os nossos olhos, vêem-se desaparecer a pouco e pouco os antigos costumes; toda a existência da família proletária organiza-se de modo novo; de modo insólito e estranho, afirmam alguns. Todavia o que mais fez refletir a mulher nas presentes contingências é que o divórcio foi facilitado na Rússia dos Sovietes. Com efeito, em virtude do decreto dos comissários do povo de 18 de dezembro de 1917, o divórcio deixou de ser um luxo, apenas acessível aos ricos; para o futuro, a mulher operária não deverá solicitar durante meses, ou durante anos, um passaporte separado para reconquistar a sua independência e afastar-se de um marido bruto ou bêbado, que a enche de pancada. Para o futuro, o divórcio far-se-á no espaço de uma semana ou, no máximo, duas semanas. Mas precisamente esta facilidade de divórcio, tão abençoado pelas mulheres infelizes no matrimônio, é o que espanta as demais, especialmente as que estão habituadas a considerar o marido como seu único sustento na vida, e que não compreendem que a mulher deve acostumar-se a procurar e encontrar o seu sustento em outra parte, não na pessoa do homem, mas na coletividade, no Estado.
Não se deve dissimular a verdade: a família normal do passado, em que o homem era tudo e a mulher não era nada – já que ela não tinha nem vontade, nem dinheiro, nem tempo por si mesma – essa família está se modificando dia a dia, e podemos afirmar que já passou. Mas isto não deve espantar-nos. Seja por erro, seja por ignorância, estamos dispostos a fingir que à nossa volta tudo continua imóvel, quando na realidade tudo muda. “Foi sempre assim e assim continuará.” Não há nada tão errado como este provérbio. Basta ler como viviam os homens no passado e logo nos damos conta de que tudo está submetido a mudanças e que não há nada fixo e invariável, quer se fale dos costumes, quer das organizações políticas. E a família, nas diversas épocas da humanidade, mudou várias vezes de forma, e no passado foi muito diferente do que estamos habituados a ver hoje. Houve algum tempo em que se conhecia somente uma forma de família: a família genética, quer dizer, aquela que tinha como chefe uma velha mãe, à volta da qual se agrupavam os filhos, os netos, os bisnetos para trabalharem juntos. Noutra época conheceu-se a família patriarcal, presidida pelo pai-patrono, cuja vontade era lei para os demais membros da família. Todavia, também nos nossos dias se podem ver em algumas aldeias estas famílias camponesas. Com efeito, ali os costumes e leis da família não são os mesmos que os do operário da cidade; nas aldeias afastadas dos grandes centros ainda se encontram muitos costumes que já desapareceram nas famílias do proletariado urbano. A forma da família e os seus usos variam segundo os povos. Há povos (por exemplo, os turcos, os árabes, os persas, etc.) onde a lei admite que um só marido tenha varias mulheres. Houve, e há ainda, povos onde o uso tolera absolutamente o contrário, quer dizer, que uma mulher tenha vários maridos. E, ao contrário do costume habitual do homem dos nossos dias, que exige que a jovem permaneça virgem até ao seu matrimônio legítimo, havia povos em que a mulher se vangloriava de ter muitos amantes e usava nos braços e nas pernas tantos anéis quantos amantes possuía... Certos costumes que nos admirariam e que consideraríamos como imorais estão consagrados noutros países, que, pelo contrário, consideram como pecado as leis e os costumes que regem o nosso país. Por isso, não nos devemos espantar com a idéia de que a família está se modificando, ao vermos que desaparecem pouco a pouco os vestígios do passado, que já se tornam inúteis, e finalmente, porque entre o homem e a mulher se estabelecem novas relações. Só devemos perguntar: o que acabou nos costumes da nossa família e quais são, nas relações entre o operário e a operária, entre o camponês e a camponesa, os direitos e deveres respectivos, que se harmonizariam melhor com as condições de existência da Rússia nova, da Rússia trabalhadora, isto é, da nossa atual Rússia soviética. Só se conservará o que convier; todo o resto, todas as coisas velhas e inúteis legadas pela maldita época da escravatura e dominação, que foi a dos latifundiários e dos capitalistas, tudo isto será varrido, junto com a classe dos proprietários, com esses inimigos declarados do proletariado e até dos pobres...
A família, na sua forma atual, não é outra coisa senão uma das ruínas do passado. Sólida, encerrada em si mesma e indissolúvel, já que se considera como tal o matrimônio abençoado pelo pope era também necessário que assim fosse para todos os membros. Se a família não tivesse existido, quem teria alimentado, vestido e educado as crianças e quem as teria guiado através da vida? A sorte do órfão era no passado a pior de todas as sortes. Na família a que estamos acostumados, o marido trabalha e mantém a mulher e os filhos, enquanto a mulher se ocupa da casa e educa os filhos, de acordo com o que pensa desta missão. Mas, desde o século passado esta forma tradicional da família destrói-se progressivamente em todos os países onde impera o capitalismo, onde aumenta rapidamente o número de fábricas, de oficinas e de outras empresas capitalistas que fazem os operários trabalhar. Os costumes e usos familiares transformaram-se ao mesmo tempo que as condições gerais de vida. O que em primeiro lugar contribuiu para transformar de modo radical os usos da família foi, sem dúvida, a difusão universal do trabalho assalariado da mulher. No passado, só o homem foi considerado como o amparo da família. Mas nos últimos cinqüenta ou sessenta anos vê-se na Rússia (nos outros países o mesmo fenômeno produziu-se um pouco antes) que o regime capitalista obriga a mulher a procurar um trabalho remunerado fora da família, fora da sua casa. O salário do homem, o sustento, é já insuficiente para as necessidades da família, e a mulher por sua vez, viu-se obrigada a trabalhar para ganhar dinheiro; também a mãe tinha que entrar pelas portas das fábricas ou das oficinas. E ano após ano vê-se aumentar o número de mulheres da classe operária que desertam de casa, quer para engrossar as fileiras das operárias, nas fábricas, quer para servir como diaristas, lavadeiras, domésticas, etc. Segundo um cálculo efetuado antes da 1.ª Guerra Mundial, contaram-se nos Estados da Europa e da América sessenta milhões de mulheres que ganhavam a vida com um trabalho independente. Durante a guerra esta cifra aumentou consideravelmente. Quase metade destas mulheres são casadas e por aqui se vê qual deve ser a vida da família, quando a esposa e mãe vão para o trabalho e está fora de casa durante oito horas por dia, que com o trajeto chegam a dez. A casa está descuidada, necessariamente; os filhos crescem descuidados pela vigilância materna, abandonados a si mesmos e expostos aos perigos da rua, onde passam a maior parte do tempo. A mulher, a mãe operária, sua sangue para cumprir três tarefas ao mesmo tempo: trabalhar durante oito horas num estabelecimento, o mesmo que seu marido; depois se ocupar da casa, e finalmente, tratar dos filhos. O capitalismo pôs nos ombros da mulher uma carga que a esmaga; fez dela uma assalariada, sem ter diminuído o seu trabalho de dona de casa e de mãe. Assim, a mulher dobra-se sob o triplo peso insuportável, que lhe arranca amiúde um grito de dor e que, às vezes, também lhe faz verter lágrimas. O afã foi sempre a destino da mulher, mas nunca houve destino de mulher mais terrível e desesperada que a de milhões de operárias sob o jugo capitalista durante o florescimento da grande indústria...
Quanto mais se generaliza o trabalho assalariado da mulher tanto mais se decompõe a família. Que vida de família é aquela em que o marido e a mulher trabalham fora de casa, em que a mulher nem sequer tem tempo de preparar a comida dos seus! Que vida de família é a que o pai e a mãe podem passar apenas alguns momentos com seus filhos! Em outros tempos a vida da família era muito diferente; a mãe, dona de casa, permanecia no lar, ocupando-se dele, e não cessava de cuidar dos filhos, hoje, mal nasce o dia, ao primeiro apito da sirene da fábrica, a operária corre para o trabalho; e, quando vem, à noite, de novo ao apito da sirene, apressa-se em voltar para casa para preparar a comida da família e fazer os trabalhos de casa mais urgentes. Depois de ter dormido insuficientemente, volta no dia seguinte à sua jornada de operária; a vida da operária casada é um verdadeiro presídio! Não é de surpreender, por conseguinte, que em tais condições a família se desmembre e se decomponha cada vez mais. Vê-se desaparecer pouco a pouco tudo o que antes fazia sólida a vida da família e a colocava sobre bases estáveis. A família deixa de ser uma necessidade, tanto para os membros que a compõem como para o Estado. A antiga forma da família torna-se hoje um estorvo.
Que fazia tão forte a família no passado? Em primeiro lugar, o fato de que o marido-pai mantinha a família; em segundo lugar, que o lar comum era necessário para todos os membros da família, e finalmente, a educação dos filhos por parte dos pais. Que fica hoje de tudo isto? Dissemos já que o marido deixou de ser o único amparo da família. Neste sentido, a operária é igual ao homem; aprendeu a ganhar a vida para si mesma e até, às vezes, para o marido e filhos. Fica a casa e a educação, assim como a criação dos filhos de tenra idade. Vejamos mais de perto se a família não está também em condições de ser aliviada destas tarefas..

2. Os trabalhos domésticos deixam de ser necessários

Em outros tempos, toda a vida da mulher das classes pobres, na cidade e no campo, decorria no seio da família. A mulher não sabia de nada que fosse além da porta, e, certamente, também não queria saber mais. Mas em casa tinha as ocupações mais variadas, mais úteis, mais necessárias, não só para a família, mas também para o próprio Estado. A mulher fazia tudo o que está fazendo agora em sua casa qualquer operária e camponesa, quer dizer, cozinhava, lavava e remendava a roupa, limpava a casa, mas não fazia apenas isto, pois também tinha que realizar muitas outras ocupações, das quais a mulher de hoje está aliviada. Fiava a lã e o linho, tecia a tela e o pano, fazia meias e rendas, defumava ou salgava a carne, fabricava bebidas caseiras e até as velas para iluminação. O que é que não fazia a mulher de outros tempos? Eis aqui de que modo passavam a vida as nossas mães e avós. Também na nossa época, nas aldeias isoladas, longe das estradas de ferro e dos grandes rios, podem encontrar-se alguns lugares onde esta maneira de viver dos velhos tempos se conserva em toda a sua pureza, onde a dona de casa efetua aqueles trabalhos de que já não tratam as operárias das cidades.
Na época das nossas avós, todo este trabalho doméstico era essencialmente necessário e útil, visto que dele dependia o bem-estar da família; quanto mais resistia à fadiga a dona de casa, tanto melhor se vivia naquela casa, com maior comodidade e em melhores condições. Até o Estado tirava beneficio desta atividade da mulher, já que, efetivamente, a mulher não se limitava a preparar a comida diretamente consumida pela família, mas as suas mãos preparavam múltiplos produtos, como a tela, o fio, a manteiga, etc., quer dizer, artigos que podiam vender no mercado e que, por conseguinte, constituíam mercadorias e valores.
É certo que na época das nossas avós e bisavós o seu trabalho não foi valorizado em dinheiro. Mas cada homem, fosse camponês ou operário, procurava como esposa a mulher “das mãos de ouro”, como se diz ainda entre o povo, porque apenas os recursos do homem sem “o trabalho doméstico” da mulher teriam sido insuficientes para manter a futura família. Mas quanto a este ponto, os interesses do Estado e da nação coincidiam com os do marido; quanto mais provas de atividade a mulher deu no seio da família, tanto maior número de produtos resultava (seda, couro, lã), e o resto destes produtos era vendido no mercado vizinho; por conseguinte, a prosperidade econômica do país, considerado no seu conjunto, aumentou também por este meio.
Mas o capitalismo mudou completamente este modo de existência. Tudo o que se fazia antes no seio da família, foi fabricado em grandes quantidades nas fábricas. A máquina substituiu os dedos hábeis da mulher. Que dona de casa se ocuparia atualmente a fazer velas, fiar lã, tecer tela? Todos estes produtos podem ser comprados. No passado, todas as moças aprendiam a fazer meias. Hoje em dia vê-se uma jovem operária que faça as suas próprias meias? Antes de mais nada, não haveria tempo para isso: o tempo é dinheiro e ninguém quer gastá-lo de modo improdutivo, sem daí tirar certo benefício. Hoje em dia toda a operária tem mais interesse em comprar as meias feitas. Já é raro que uma operária ponha os pepinos no vinagre, ou prepare conservas, visto que o lojista vizinho os vende. Ainda que o que se prepara nas fábricas seja de qualidade inferior ao que foi preparado pelas donas de casa, devemos confessar que a operária não tem tempo, nem força para se ocupar tão intensamente da sua casa. É, antes de tudo, uma assalariada, que, devido ao seu trabalho remunerado, se vê obrigada a descuidar o lar. Seja como for, fica o fato de que a família contemporânea se emancipa pouco a pouco de todos aqueles trabalhos domésticos, sem os quais as nossas mães não poderiam sequer fingir uma família. O que no passado foi preparado em família é fabricado hoje pelo trabalho comum dos operários e das operárias.
Hoje em dia, a família consome, contudo, mas já não produz. Os trabalhos essenciais da dona de casa reduzem-se a três coisas: serviço de limpeza (limpar o chão, sacudir o pó, acender o fogo, encher os candeeiros, etc.), cozinha (preparação das refeições), lavar, remendar e engomar a roupa.
São trabalhos penosos e esgotantes, que absorvem todo o tempo e toda a força da operária, que, além disto, tem que trabalhar durante oito horas na fábrica. Mas é verdade também que o trabalho das nossas avós compreendia uma tarefa muito maior. Mas, ao contrário do trabalho fornecido pelas nossas avós, o trabalho atual da mulher deixou de ser necessário para o Estado do ponto de vista da economia nacional. Estes trabalhos já não são valores novos e não contribuem para a prosperidade geral do país.
A dona de casa pode passar todo o dia, de manhã à noite, limpando a sua pobre habitação, a lavar e engomar a roupa, consumindo as forças sem cessar, para ter em ordem os seus vestidos usados; poderá preparar os melhores pratos que for possível com as modestas provisões de que dispõe; todo o seu trabalho resultará, contudo, improdutivo, e quando chegar à noite, não ficará qualquer vestígio material do seu trabalho e as suas mãos incansáveis não construirão nada que constitua valor no mercado comercial. A dona de casa poderia viver durante mil anos e o mundo marcharia sempre igual: teria sempre que limpar o pó, o marido voltaria para casa todas as noites com fome e os filhos sujariam mais uma vez os seus vestidos. O trabalho da dona de casa torna-se cada vez mais inútil e improdutivo.
A casa individual está em perigo e está para ser substituída cada vez mais pela casa coletiva. Em breve, a operária já não poderá tratar da sua casa; na sociedade comunista de amanhã, este trabalho será realizado por uma categoria especial de operárias, que apenas farão isto. As mulheres dos ricos emanciparam-se há muito tempo destas fadigas aborrecidas e ingratas. Por que a operária continuará a ser submetida a este trabalho? Na Rússia dos Sovietes, a vida das operárias deve ser cercada das mesmas comodidades, da mesma luz, da mesma higiene e da mesma beleza de que se cercaram até agora as mulheres ricas. Numa sociedade comunista, a operária não deverá ocupar as suas horas de ócio, demasiado raras, cozinhando já que na sociedade comunista haverá restaurantes populares e cozinhas centrais, onde todos poderão ir tomar as suas refeições. Já no regime capitalista se começaram a criar estas instituições. Com efeito, desde há meio século, em todas as grandes cidades da Europa aumentava consideravelmente o número de restaurantes e cafés. Mas, enquanto que no regime capitalistas as pessoas cujo bolso estava cheio de dinheiro podiam se dar ao luxo de fazer as suas refeições nos restaurantes, na sociedade comunista todos poderão ir comer nos restaurantes. O mesmo acontecerá quanto à lavagem da roupa e a outros trabalhos que ainda hoje são domésticos; a operária já não será obrigada a extenuar-se no tanque nem cansar os olhos remendando a roupa. A operária levará todas as semanas as suas roupas às lavanderias centrais e quando for buscá-las encontrará tudo lavado e engomado; será uma preocupação a menos para a operária. Por outro lado, laboratórios especiais para a reparação dos utensílios domésticos permitirão à operária guardar as suas horas de ócio para leituras instrutivas, para distrações sadias, em vez de passá-las, como estão fazendo agora, em trabalhos ingratos. Entretanto, os últimos trabalhos domésticos que se conservam ainda a cargo da dona de casa estão em vias de desaparecer no regime comunista triunfante. E, certamente, a operária não chorará por isso. A sociedade comunista não despedaçará o jugo doméstico da mulher senão para lhe tornar a vida mais livre, mais rica, mais completa e agradável.

3. A educação dos filhos cabe ao Estado

Mas então o que restará da família quando todos os trabalhos da casa desaparecerem? Os filhos. Mas também quanto a este problema o Estado proletário virá em socorro da família, substituindo-a: a sociedade encarregar-se-á, gradualmente, de tudo o que antes incumbia aos pais. Já no regime capitalista a instrução da criança tinha deixado de estar a cargo dos pais: as crianças estudavam nas escolas. Quando a criança chegou à idade de ir para a escola os pais respiraram; desde esse momento o desenvolvimento intelectual do filho deixou de ser preocupação sua. Mas com isto não acabaram todas as obrigações da família para com as crianças; ficou ainda o problema da alimentação, do calçado, do vestuário e de fazer deles operários hábeis e honrados, que mais tarde estejam em condições de viver por si mesmos, e sejam o amparo da velhice do pai e da mãe. Na realidade, a família operária raramente conseguia cumprir integralmente todas estas obrigações para com os filhos e os salário demasiado módicos apenas lhe bastavam para dar às crianças alimentos suficientes; a falta de tempo disponível impedia o pai e a mãe de consagrar à educação dos filhos todo o tempo que era necessário. A família era obrigada a educar os filhos; mas educava-os na realidade? A rua é que educa os filhos dos proletários; eles ignoram a doçura da vida em família, doçura de que, contudo, gozaram nossos pais e mães.
Além disso, os salários baixos dos pais, a falta de segurança e, também a fome, obrigam a que, aos dez anos apenas, a criança proletária se torne por sua vez, um operário independente. Pois bem, o rapaz ou a moça mal começam a ganhar, sentem-se donos dos seus destinos, de forma que os conselhos ou as ordens dos pais deixam de ter influência sobre eles; a autoridade dos pais enfraquece e os filhos já não lhes obedecem. Do mesmo modo que desaparecem um a um os trabalhos domésticos da família, assim se vêem desaparecer todas as obrigações a respeito das crianças. Estas obrigações, alimentação e educação, a sociedade as cumpre em vez dos pais. Para a família proletária, em regime capitalista, os filhos eram freqüentemente um peso, uma carga insuportável.
Também, quanto a este problema, a sociedade comunista ajudará os pais. Na Rússia soviética e a cargo do comissariado da Instrução Pública e da Previdência Social, muito se realiza com o propósito de facilitar para a família a tarefa da educação e da alimentação das crianças. Creches, escolas infantis, colônias e casas para crianças doentes, restaurantes, refeições gratuitas nas escolas; distribuição de manuais, de roupas e de calçado aos alunos. Acaso, isto não demonstra que a infância sai dos quadros da família e se transfere dos ombros dos pais para os da coletividade?
O cuidado das crianças, no que diz respeito aos pais, consistia de três partes principais: a que compreendia o cuidado propriamente dito dos pequenos; a que se referia à educação da criança e, finalmente a que dizia respeito à sua instrução. No que toca ao ensino das crianças, nas escolas primárias e mais tarde nos Institutos e nas Universidades, já na sociedade capitalista é tarefa do Estado. As necessidades da classe operária, as suas condições de vida, impunham imperiosamente, até na sociedade capitalista, a criação de todo um sistema de educação para as crianças, como campos de jogos, escolas infantis, casas para garotos, etc. Quanto mais conscientes dos seus direitos eram os operários e quanto melhor estava organizado o Estado, tanto mais disposta se mostrava a sociedade para aliviar a família do cuidado das crianças. Mas a sociedade burguesa temia favorecer demasiado os interesses da classe operária e contribuir, nesta medida, para a decomposição da família. Os capitalistas não ignoraram que a antiga família – com a mulher escrava e o homem responsável pela manutenção do bem-estar dos seus – é o melhor meio para entravar o esforço proletário de libertação e para debilitar o espírito revolucionário do operário e da operária. O pensamento da família inclina as costas do operário e o faz transigir com o capital. O que seriam capazes de fazer um pai ou uma mãe quando os seus filhos têm fome? Pois bem, ao contrário da sociedade capitalista que não soube transformar a educação da juventude em uma obra verdadeiramente social, em uma obra do Estado, a sociedade comunista considera a educação social das jovens gerações como a própria base das suas leis e dos seus costumes, como a pedra angular do novo edifício. Não é a antiga família, mesquinha e egoísta, com as disputas entre os pais, com a exclusiva preocupação com os seus, que deve formar o homem da sociedade de amanhã; deve ser formado por novas obras socialistas como campos de esportes, jardins, etc., onde a criança passará a maior parte do dia e onde educadores competentes farão deles comunistas conscientes da grandeza desta proclamação sagrada: “solidariedade, companheirismo, ajuda recíproca, devoção à coletividade”. Mas, uma vez retirada a educação e o ensino, que ficará das obrigações da família para com a criança, sobretudo depois desta se ver também liberta da maior parte das preocupações materiais que se referem àquele, exceto no que diz respeito ao cuidado com um bebê de tenra idade, quando necessita ainda do seio materno ou, quando os seus passos ainda vacilam e tem que agarrar-se à saia da mãe? Mas o Estado proletário intervém até nessa idade, se a mãe necessita dessa intervenção, e já não haverá mães solteiras abandonadas com os filhos nos braços. O Estado dos operários assume a tarefa de assegurar a subsistência de cada mãe, seja casada legalmente ou não, enquanto ela der o peito ao filho; fundará maternidades em todas as cidades, criará em todas as cidades e até nas aldeias asilos de infância e outras instituições similares, permitindo assim à mulher servir utilmente ao Estado e ser mãe ao mesmo tempo.
E as mães operárias não tenham receio: a sociedade comunista não se dispõe a tirar a criança dos pais nem arrancar o bebê do colo da mãe; nem tão pouco tem a intenção de destruir a todo o custo a família, ou coisa que o valha. Que vemos hoje? A antiga família decompõe-se, liberta-se pouco a pouco de todos os trabalhos domésticos que antes eram os pilares da família, como família. A casa? Também ela deixou de ser uma necessidade. Os filhos? Os pais proletários não estão em condições de tratá-los cuidadosamente; não podem assegurar-lhes a subsistência nem a educação. Esta é uma situação em que sofrem de igual modo os pais e filhos. A sociedade comunista vai, pois, ao operário e à operária e diz a eles: “Sois jovens e amai-vos. Todos têm o direito à felicidade. Vivei, pois, a vossa vida. Não vos afasteis da felicidade, não tenhais medo do matrimônio, que na sociedade capitalista era, certamente, um grilhão para os operários. Sobretudo não temais – já que sois jovens e saudáveis – dar à pátria novos operários, novos cidadãos. A sociedade dos operários necessita de novas forças para o trabalho e saúda o aparecimento de cada nova criança. Nem sequer deveis preocupar-vos com o futuro do vosso filho: não terá fome nem frio, nem será infeliz; não será abandonado ao seu destino, como teria ocorrido no regime capitalista.” Na sociedade operária, mal nasce a criança, são-lhe assegurados alimentos e cuidados pormenorizados. A criança será alimentada, educada, instruída pela pátria comunista; mas esta não tirará a criança àqueles pais que queiram participar na educação do seu filho. A sociedade comunista encarregar-se-á do ônus que compreende a educação dos filhos, mas deixará as alegrias e satisfações dos pais, àqueles que se mostram aptos para entender estes sentimentos. Pode chamar-se a isto destruição da família por meios violentos, ou separação forçada da criança da sua mãe? Deve dizer-se antes: já passou o tempo da família antiga e isto não é devido ao Estado comunista; deve-se à ação das novas condições de vida. A família deixa de ser necessária para o Estado como o foi no passado; hoje, pelo contrário, a família reserva a mulher para um trabalho profundo e muito mais sério. Mas nem a família é já necessária para os seus próprios membros, já que a tarefa da educação das crianças que lhe incumbia antes, passa cada vez mais para a coletividade. Mas sobre as ruínas da antiga família se verá surgir em breve uma forma nova, que compreenderá novas relações entre o homem e a mulher, que será uma união de afeto, de companheirismo, a união dos membros iguais da sociedade comunista, ambos livres, ambos independentes, ambos trabalhadores. Já não haverá escravatura doméstica da mulher. Já não haverá desigualdade no seio da família. A mulher não deverá ter medo de ficar sem apoio, com os filhos nos braços se o marido a abandonar. Na sociedade comunista a mulher não depende do marido, mas do seu trabalho. O marido não a mantém e sim seus próprios braços trabalhadores. Não terá angústia o futuro dos filhos, já que o Estado proletário se encarrega deles. Ver-se-á o matrimônio liberto do lado material, de toda a conveniência, essa odiosa chaga na vida da família dos nossos dias. O matrimônio transforma-se, assim, numa associação sublime de duas almas que se amam, que têm confiança uma na outra, numa associação que promete a cada operário e a cada operária a satisfação mais completa que pode caber a um ser consciente de si mesmo e da vida que o rodeia. A união livre, mais forte no espírito de companheirismo que a inspira, em vez da escravatura conjugal do passado: eis o que trará ao homem e à mulher a sociedade comunista de amanhã. Pois bem, enquanto forem transformadas as condições de trabalho, e for aumentada a segurança material das operárias e visto que o matrimônio celebrado na igreja – que, de palavra era indissolúvel, mas de fato não era mais que um engano –, desde que este matrimônio tenha dado lugar à união livre e sincera do homem e da mulher, amantes e companheiros, se verá desaparecer ao mesmo tempo aquela outra chaga vergonhosa, aquele outro mal horroroso que desonra a humanidade e que perde a operária que tem fome: a prostituição.
Devemos este mal ao regime econômico vigente, à instituição da propriedade privada. Uma vez abolida esta, o tráfico de mulheres desaparece também.
Então, que as mulheres da classe operária não se lamentem, ao ver que a família atual está condenada a desaparecer. Farão melhor se saudarem com alegria a aurora da nova sociedade que as libertará da escravidão doméstica, que lhes aliviará o peso da maternidade, e em que se verá cessar, finalmente, a mais terrível das maldições que pesa sobre a mulher e que se chama prostituição. A mulher, que é chamada a lutar pela grande obra de redenção dos operários, deve compreender que na nova sociedade não poderá existir a divisão anterior: “Estes são os meus filhos e para eles vai toda a minha solicitude material, todos os meus afetos. Aqueles são os filhos da minha vizinha e não me importam. Basta-me os meus.” Para o futuro a mãe operária, consciente da sua tarefa social, deve elevar-se a ponto de não fazer diferença entre “o meu e o teu”, deve recordar que não há mais que “os nossos” filhos, os da sociedade comunista, comuns a todos os operários.
O Estado proletário necessita de uma nova forma de relações entre os sexos. O afeto restringido e exclusivo da mãe pelo seu filho deve engrandecer e abranger todos os filhos da grande família proletária. Em vez do matrimônio indissolúvel, baseado na escravatura da mulher, se verá nascer a união livre e forte do amor mútuo dos membros da sociedade trabalhadora, iguais em direitos e deveres. Em vez da família individual e egoísta, surgirá a grande família universal operária, onde todos os trabalhadores, homens e mulheres, serão antes de tudo irmãos e companheiros. Estas serão as relações entre o homem e a mulher na sociedade comunista de amanhã. Estas novas relações assegurarão à humanidade todos os prazeres do amor livre, enobrecido pela verdadeira igualdade social dos sexos, prazeres que eram ignorados na sociedade mercantil do regime capitalista.

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